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Seis noites em uma vila italiana, cozinhando com o chef ou, ainda, fazendo nada. Mas sempre comendo muito bem

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Viviane Zandonadi, da Toscana, na Itália
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O que uma empresária do ramo de cosméticos do Rio Grande do Sul, outra do mercado de sapatos do Espírito Santo, um casal de fisioterapeuta e médico de Brasília, duas advogadas gaúchas, uma mãe superquerida e uma jornalista paulista têm em comum? Não sei, dá de ombros o leitor. Pode ser um montão de coisas. Até 24 de outubro de 2010, essa gente não se conhecia. Mas a partir deste dia e durante uma semana, comeram juntos massas perfumadas por trufas brancas, assados suculentos e surpreendentemente delicados como o de carne de javali e fecharam os olhos enquanto levavam à boca um pedaço de figo recheado de queijo cremoso, coroado por uma framboesa superfresca e abraçado por um filezinho de anchova. Tudo harmonizado com vinhos locais e a atenção de quem os recebia: os sócios da Al Mondo, agência especializada em turismo gastronômico e baseada em Ijuí, no Rio Grande do Sul.

Ao longo do ano, os viajantes se programaram e compraram os pacotes. No outono, munido de avental e chapéu de aluno e algumas expectativas, o grupo se encontrou na Toscana, um dos lugares mais bonitos do planeta , para mergulhar em baixa temperatura numa espécie de pintura: a luz perfeita destaca as cores e os campos floridos, as copas de árvores estão amareladas pela estação, as alamedas forradas de folhas secas e crocantes, os ciprestres, as oliveiras, as parreiras.

Ficaram hospedados em uma casa fabulosa cravada no cenário cercado de cidadezinhas medievais. O imóvel, alugado pela Al Mondo, pertenceu a banqueiros da família Médici e é o que localmente se chama de villa (viu o filme Sob o Sol da Toscana ?). A estrutura do século XV foi restaurada, preservando a arquitetura original da mansão aconchegante, cheia de espaços perfeitos e do tipo que dá vontade de morar para sempre. São cinco quartos grandes – uns mais do que os outros – e superbem decorados e cuidados, banheiros idem, vestíbulos, salinhas estrategicamente iluminadas por janelas que emolduram paisagens inspiradoras, salas de almoço, jantar, lareira, cozinha equipada.

A casa fica perto de Forcoli e Potendera. A primeira é uma cidadezinha que se atravessa num susto. A segunda, maiorzinha, é um bem ajeitado centro de compras e passeio, tudo perto das colinas de San Miniato e no meio do caminho entre Florença, Pisa e Siena, o tripé renascentista da Toscana.

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Viviane Zandonadi, da Toscana, na Itália
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O pacote

Uma semana com a Al Mondo em uma casa como esta custa em média 4200 euros por quarto, e cada quarto acomoda duas pessoas. Compensa ir em boa companhia. O pagamento é feito em X vezes negociadas direto com o pessoal da Al Mondo. Se o cliente decide aderir em fevereiro à viagem que vai ocorrer em outubro, tem até a véspera para “acertar as contas” em parcelas que cabem no bolso.

A rigor, o pacote inclui coquetel de boas-vindas, seis diárias com café da manhã elaborado com produtos frescos (servido até o meio-dia), seis jantares com entrada, principais e sobremesa, três aulas práticas de culinária – que ocorrem no preparo das refeições e que podem ser acompanhadas desde a escolha e compra dos ingredientes até a execução, embalada pelas histórias de cozinheiro contadas pelo chef –, caça às trufas, água e sucos servidos nos jantares e durante o dia.

O viajante “mora” na Toscana por uma semana, quando é aberta uma janela de oportunidades: pode usar a tranquilidade do dia, o conforto da casa e a paisagem inspiradora para ler, escrever, pensar na vida e fazer nada. Pode brincar na cozinha ou alugar um carro e explorar a região. Passear a pé em caminhadas sem rumo. Visitar, junto com o chef e sócio da Al Mondo, Marcelus Vieira, os mercados locais. Mas também dá para dormir o dia inteiro. Sem cobranças, horários rígidos ou qualquer vestígio da impessoalidade de um hotel. Mesmo cinco estrelas. Não há constelação da hotelaria que se compare a uma experiência tão intimista.

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Viviane Zandonadi, da Toscana, na Itália
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O cardápio

O chef das expedições gastronômicas da Al Mondo é o gaúcho Marcelus Vieira. Um sujeito criado no interior do Rio Grande do Sul à base de feijão preto bem temperado. Comida e afeto são as bases da sua cozinha, que valoriza o consumo consciente e os alimentos orgânicos. Vieira dá aulas para grupos e faz jantares personalizados. Formou-se chef pelo Instituto Mausi Sebess, de Buenos Aires, na Argentina, estudou cozinha italiana no braço brasileiro do ICIF, o Instituto Italiano de Culinária para Estrangeiros. Também aprendeu culinária provençal na França e mergulhou no curso de cozinha clássica e moderna francesa do chef Laurent Suaudeau, em São Paulo.

O cardápio dos jantares que Vieira apresenta em uma semana na Toscana (ou outro destino) é resultado de pesquisa cozida em fogo lento e tranquilo, com formação do cozinheiro, viagens, encontros com chefs, visita a pequenos e grandes restaurantes do mundo, memórias de infância.

Ele pré-elabora as receitas, mas sua realização estará sempre submetida ao que for encontrado de mais fresco na feira ou mercado local, visitado todos os dias. Por isso às vezes é preciso improvisar. Falta atum para o tartare, mas o salmão está fresco? É com esse que ele vai.

O resultado no geral são pratos que até podem demorar um pouquinho para ser executados – não todos –, mas a tarefa normalmente é simples e obedece a uma coreografia que, na cabeça de quem assiste ou participa sob a supervisão do chef, é reveladora. Assar tomatinhos cereja ao forno, com alho, ervas e azeite, nunca mais será a mesma coisa. Você descobre, por exemplo, que depois de tirar a pele das frutinhas que vão compor a entrada da noite, essa mistura de temperos e pele pode ser processada no liquidificador e transformar-se em um delicado molho. Um azeite de tomate. Aquelas folhas de abóbora que sua avó fritava? Recheadas de ricota temperada e anchovas, antes de ir para a frigideira, vão entreter barrigas roncando até dar início aos trabalhos do jantar. Confira, neste link, um menu toscano pensado por Marcelus Vieira e que dá para fazer tranquilamente em casa .



Programação da Al Mondo para 2011

Neste ano, a Al Mondo levará os viajantes para a França ( Provence , de 2 a 8 de outubro) e a Itália ( Toscana , de 16 a 22 de outubro). Quem quiser já pode se programar, entrando em contato com o grupo em www.almondo.com.br ou pelo telefone (55) 9118-5939.

A família Al Mondo

O trabalho da Al Mondo, que há mais de três anos oferece essa viagens temperadas para a Europa, é especial, mas não é inédito. Outras empresas no Brasil promovem turismo gastronômico, cada qual com seu modelo. Algumas, por exemplo, contratam chefs, escritores ou guias com repertório na área para elaborar um roteiro de compras e culinária no destino escolhido.

A pequena Al Mondo tem seu próprio chef, o Marcelus Vieira, e outros quatro personagens que cumprem funções distintas na rotina das casas de modo que tudo funcione: a administradora Suzana Vieira, mulher do chef, é um sorriso ambulante. Cheia de histórias para contar e capaz de sacar uma solução bem prática aqui e ali para alguma dúvida do viajante. A dentista Adriana Vedolin e o marido, o médico Celso Vedolin, transmitem tranquilidade. Ela ajuda todo mundo com informações sobre atrações locais e, junto com Suzana, forma uma dupla de fadinhas que cuida para que todos os aposentos da casa estejam sempre impecáveis e que mimos cheguem aos hóspedes por caminhos invisíveis. Celso cuida das compras do café da manhã, administra a casa, o som e também é um bom consultor sobre 'o que fazer'. E eles dois tem clones! Se precisarem se ausentar, escalam para seu lugar a dupla Gabriela, filha do casal, e Ricardo, marido da moça. Por fim, tem a consultora de moda Daniela Vargas, fiel escudeira de Marcelus Vieira na cozinha.

Em comum, todos nutrem paixão por viagem, comida e vinho e, não dá para negar, um talento para se relacionar, um raro "gostar de gente". Afinal, como "cuidar" tão bem dos clientes, adivinhar seus desejos, administrar humores, enfrentar eventuais insatisfações? "Não somos agentes de viagem nem funcionários de hotelaria", avisam. Talvez por isso mesmo tudo ali seja tão harmônico e natural. Todos são extremamente educados e cuidadosos. Deixam todo mundo à vontade. É como ser acolhido por uma família composta de dois pais, duas mães e uma irmãzinha caçula. E tudo vai dar certo.

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