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Engenho Boa Vista, perto de Tiradentes, faz aguardente orgânica há 250 anos

São 22 quilômetros entre a turística Tiradentes e Coronel Xavier Chaves, diminuta paragem do interior de Minas Gerais. Para atravessar a cidadezinha de carro gastam-se apenas alguns minutos. No trajeto, lá estão a praça, o coreto e a igreja. O clima pacato e provinciano também é carregado de história. O coronel que dá nome ao lugar era bisneto de Antonia Rita da Encarnação Xavier, irmã de Tiradentes, figura mais emblemática da Inconfidência Mineira.

Antes que o asfalto da rua principal termine, pergunte a qualquer morador o caminho para se chegar ao Engenho Boa Vista. A resposta é imediata e, na despedida, o turista ainda ganha um mineiríssimo “vai com Deus”. Cerca de 100 metros de estrada de terra ligam a cidade à entrada da fazenda. Desde a porteira, a paisagem é bucólica. Em meio ao canavial, plantado numa área de oito hectares, ergue-se uma singela e bem cuidada construção colonial, datada de 1755. No detalhe, a fumaça saindo da chaminé e o inebriante cheiro de garapa indicam que o Engenho Boa Vista continua vivo, movido pela produção de aguardente de cana de açúcar há ininterruptos 255 anos.

Quem recebe a reportagem do iG Comida é Luiz Fernando Silva de Resende Chaves, o Nando, sétima geração dos Chaves a levar adiante a tradição secular da família. Aos 48 anos, Nando é um homem do campo nato. De boné, jaquetão empoeirado e botinas de couro, franze a testa e espreme os olhos, num esforço de memória, ao desfiar a cadeia genética que cerca o alambique: “Essa fazenda pertenceu ao padre Domingos da Silva Xavier, irmão mais velho de Tiradentes. Atualmente a propriedade é do meu pai, Rubens Chaves, que vem a ser bisneto do coronel que batiza a cidade, que também tinha vínculos com o mártir da Inconfidência”.

Juntos, Rubens e Nando buscaram preservar as características originais do engenho Boa Vista. “Não derrubamos nenhuma parede. Quase tudo permanece como era no passado”, garante Nando, que assumiu a direção do alambique em 1990. Antes disso, enquanto ainda era estudante de zootecnia em Viçosa, ele trancou-se no laboratório de química da faculdade durante um semestre inteiro para apreender todo o processo de produção da cachaça. Estudou as variedades de cana – segundo ele, são mais de trezentas disponíveis no Brasil –, solo, clima, colheita e etapas de fabricação da bebida.

Hoje escolado no assunto, ele explica aos visitantes o funcionamento do engenho tal qual um professor. Aos sábados, as aulas parecem mais “divertidas” porque são regadas à cachaça servida (apenas para maiores de 18 anos) com linguiça caseira, mandioca frita e geleia de pimenta. “É uma degustação em que apresento nossas diferentes safras. Provamos exemplares envelhecidos, de 1985, até os rótulos mais recentes”, conta Nando. Ele se lembra de quando provou a bebida pela primeira vez, aos 18 anos: “Naquela época, a garrafa ainda era tampada com sabugo de milho e eu achava o máximo tomar a dose de uma vez só. O tempo me ensinou a degustar a bebida, prová-la aos poucos, para sentir melhor os aromas e o sabor”.

Cachaça do coração

O maior desafio relatado por Nando é continuar produzindo cachaça à moda antiga. Para cumprir as exigências da vigilância sanitária, dutos e tanques de aço inoxidável substituíram os antigos, feitos de madeira. Há oito anos, o nome da cachaça também precisou ser alterado. De Boa Vista, passou a se chamar Século XVIII. Foram mantidas, no entanto, a roda d’água que faz girar o moedor e o alambique de cobre onde ocorre a destilação da bebida.

“Nossa produção é totalmente orgânica”, ele garante. Depois de moída a cana, seu bagaço é posto para secar e usado na fornalha do alambique. A água que resfria e condensa o vapor da destilação é sempre reutilizada. “Além disso, não usamos nenhum tipo de agrotóxico na plantação e a levedura responsável pela fermentação é natural, selvagem”, completa.

Já fermentado, o caldo vira mosto – ou vinho de cana, como Nando prefere chamá-lo – e de lá segue para o alambique, onde será, finalmente, destilado. Com cinco horas de fornalha acesa, as primeiras gotinhas de cachaça começam a dar o ar da graça. Chamadas de “cabeça”, elas são descartadas por conterem alcoóis indesejáveis e até nocivos à saúde. O que vem depois é o “coração”, parte nobre da destilação. “A cachaça Século XVIII é feita com essa porção do líquido que sai do alambique, por isso costumamos dizer que é uma bebida feita com o coração”, brinca Nando. A parte final do processo de destilação, chamada de “cauda”, também é descartada.

A aguardente é, então, armazenada em tanques de aço por no mínimo seis meses. Depois desse tempo, são engarrafadas e rotuladas artesanalmente. “Nossas safras jovens são atrevidas e esquentam a garganta e o peito. As mais antigas são tranqüilas e homogêneas porque foram trabalhadas pelo tempo”, explica Nando.

Engenho Boa Vista
Estrada Velha de Ritápolis, 1 km, Coronel Xavier Chaves, Minas Gerais
Visitas com reserva pelo telefone (32) 3357-1238
As garrafas variam de R$ 15,00 a R$ 250,00, dependendo da safra.


Bebidas alcoólicas são proibidas para menores de 18 anos. Se beber, não dirija.

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