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Entenda a formação da cidade e faça um tour gastronômico que inclui comidinhas caipiras, carne de cordeiro, cerveja...

Cunha: as Serras do Mar, da Bocaina e Quebra-Cangalha envolvem a cidadezinha fotogênica e com rico patrimônio cultural
Rita Grimm
Cunha: as Serras do Mar, da Bocaina e Quebra-Cangalha envolvem a cidadezinha fotogênica e com rico patrimônio cultural

Houve um tempo em que só havia um jeito de atingir as Minas Gerais: a Estrada Real. A construção de novos acessos às riquezas daquelas terras era considerada crime de lesa-majestade pela Coroa Metropolitana. O controle era rígido por parte dos portugueses. Construída para transportar com segurança o diamante e o ouro das Minas Gerais (desde Diamantina até o porto de Paraty, no Rio de Janeiro, para enfim seguir para Portugal), a Estrada Real serviu de forma eficaz à coroa, beneficiou os tropeiros e teve grande importância na colonização de várias regiões brasileiras. Foi nessa rota, subindo a serra a 45 quilômetros de Paraty, que surgiu no estado de São Paulo a cidade de Cunha, distante 230 quilômetros da capital. Entre os séculos XVII e XVIII ela era conhecida como Boca do Sertão, justamente por seu papel de portal entre a costa e o interior.

Por ali, tropas e tropeiros levavam mercadorias e traziam minérios. Era parada de descanso obrigatória. Com o fim do ciclo do ouro, o vilarejo perdeu sua importância e mudou de nome algumas vezes. Em 1858, a então Vila Nossa Senhora da Conceição de Cunha passou à categoria de cidade. Nesse período, as antigas trilhas foram pavimentadas para deixar passar até Paraty a maior riqueza daquele momento, o café. A cidade prosperou mais uma vez. Mas o declínio da atividade cafeeira e a Revolução Constitucionalista de 1932 foram fatais para Cunha. A cidade resistiu contra os legalistas de Getúlio Vargas em favor da causa dos paulistas, os constitucionalistas. Chefes de família foram mortos, fazendas destruídas, Cunha passou por um lento período de recuperação. Mais tarde, em 1948, o Governo do Estado de São Paulo transformou o município em Estância Climática, dando novo fôlego à região.

Por volta de 1975, ceramistas japoneses, portugueses e brasileiros que se conheceram no Japão estudando cerâmica, trouxeram para Cunha uma técnica milenar de cerâmica artística, cuja queima a lenha chega a temperaturas de até 1450 graus em fornos chamados Noborigama. A construção desses fornos e a prática da cerâmica transformaram Cunha definitivamente.

A construção dos fornos e a produção de cerâmica transformou profundamente a cidade de Cunha
Rita Grimm
A construção dos fornos e a produção de cerâmica transformou profundamente a cidade de Cunha

Os primeiros japoneses ceramistas difundiram sua arte e formaram discípulos. À frente do Japão em termos de número de fornos (o Japão não tem mais lenha para queimar em abundância), a região de Cunha tem cinco ateliês de Noborigama em funcionamento. Além disso, a prática da cerâmica na região atraiu outros ceramistas, com outras técnicas, são mais de 20 ateliês. Esse movimento fez crescer o turismo e, como conseqüência, novas pousadas e restaurantes surgiram para atender à demanda.

O resultado é prazeroso: passear em Cunha é sinônimo de hospedar-se bem, ter sossego, desvendar trilhas, partir para o Pico da Macela logo de manhã cedinho e apreciar aquela supervista do litoral. É visitar cachoeiras, o Parque Nacional da Serra da Bocaina e admirar as paisagens do município com a maior reserva de Mata Atlântica do país. Nas imediações urbanas, o mais gostoso é visitar os ateliês de cerâmica, sentir aromas de comidinhas de fogão a lenha e, principalmente, conhecer a história de pessoas que fazem Cunha ser o que é. A cidade está pronta para receber seus turistas, porém, longe de ser um destino de turismo massificado. Ainda existe aquele tempo na pracinha da igreja onde é bom jogar a conversa fora, enquanto cachorros sonolentos erguem as orelhas para notar o motor de mais um fusca que passa pela via principal -- e olha que são muitos fuscas, cada um com uma cor diferente, marca registrada de Cunha.