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Na capital e em seus arredores, três restaurantes cheios de graça e história, de culinária tradicional ou contemporânea

Vista aérea da Cidade Velha, em Berna, na Suíça: passeio imperdível
Rita Grimm
Vista aérea da Cidade Velha, em Berna, na Suíça: passeio imperdível

Nossos destinos nesta última reportagem da série Suíça são três restaurantes instalados em Berna. A cidade foi fundada no século XII e, em 1848, virou capital Federal da Suíça. O Duque Herzog Berchtold V. Von Zähringen encarregou o aristocrata Cuno von Bubenberg de construir uma cidade numa península fluvial que oferecesse proteção natural por três lados. Para a única entrada, a Torre do Relógio foi o primeiro portão a ser construído. A cidade cresceu, ganhou novos portões e, no final da Idade Média, era considerada a cidade mais poderosa a norte dos Alpes. Fundada em 1191, apenas em 1224 é que a figura do urso passou a simbolizar a cidade: conta a lenda que recebeu o nome de Berna (do alemão, Bär, quer dizer urso) quando o Duque de Zähringen voltou de sua primeira caçada pela região trazendo um urso consigo, ainda no período de sua construção. Optou então por chamá-la Berna.

Caminhar pela Cidade Velha é um programa imperdível. Após um incêndio que a destruiu quase por completo em 1405, Berna foi reconstruída com arenito, a pedra da região, que lhe conferiu tons padronizados de verde. É sua marca registrada. Na região central, há padrões até para as flores. Gerânio vermelho é a única permitida nas janelas. O movimento na cidade fica mais intenso no horário comercial. O usuário tem todo o conforto para resolver seus afazeres numa área de circulação adornada por românticas arcadas cheias de lojas, restaurantes e todo tipo de serviço. É quando todos se encontram, se cruzam às pressas carregando pacotes, sacolas, com suas crianças e seus cachorros. Foi sob essas arcadas que Albert Einstein viveu, lecionou e desenvolveu a Teoria da Relatividade e onde Paul Klee criou particulares aquarelas. É por elas também que passam, todos os verões, grupos de ávidos turistas fotógrafos em busca de novos modelos de relógios, novas tecnologias. O velho e o novo juntos em uma de suas melhores versões. Classificada como Patrimônio Mundial da Unesco em 1983, é a mais extensa calçada comercial coberta da Europa.

Gerânio vermelho na casa em que Albert Einstein  viveu, lecionou e desenvolveu a Teoria da Relatividade
Rita Grimm
Gerânio vermelho na casa em que Albert Einstein viveu, lecionou e desenvolveu a Teoria da Relatividade
Berna tem 130 200 habitantes, em uma área de 51 quilômetros quadrados. Está num cantão de língua alemã onde 45% são protestantes, 24% católicos e 31% pertencem a outras religiões.

Berna é uma cidade completa, tem tudo. Seu passado pode ser representado pela Berner Münster (igreja católica erguida em 1421), pelo Zytglogge (torre do relógio do séc XVI) ou pelo Bundeshaus (Palácio do Governo), que teve suas obras iniciadas em 1852 em estilo renascentista. Conhecer o novo fosso dos ursos, o Grand Cassino ou o Museu Paul Klee completam a visitação. A capital federal também sabe ser moderna: infra-estrutura, rede hoteleira de padrão internacional, transporte público eficiente, acessibilidade, excelência nos serviços, em resumo, uma cidade que modernizou-se e atende um público bastante exigente. Agora no verão todos os monumentos estão abertos para visitação, assim como parques (Marzili, Rosengarten, Jardim Botânico, Jardim Zoológico), teatros e museus, todos com programação caprichada, como por exemplo, “Quando Paul Klee encontra-se com Picasso”, atração do Paul Klee Museum para 2010.

Para receber seus turistas ainda melhor, o lugar oferece excelentes restaurantes de padrão internacional onde o visitante pode escolher desde pratos típicos até exemplares da mais badalada cozinha contemporânea. Num passeio por Berna e arredores, o i G Comida sugere três restaurantes. São três lugares que convidam o turista a conhecer um pouco mais sobre a região; é uma maneira de aproveitar o tempo, conhecendo lugares imprescindíveis enquanto se saboreia boa comida, assunto preferido desta reportagem.

A repórter bebeu a Tram Märzen Bier e provou a salsicha de alce com batatas
Rita Grimm
A repórter bebeu a Tram Märzen Bier e provou a salsicha de alce com batatas

Altes Tramdepot (Velho Depósito de Bondes)
Grosser Muristalden, 6 CH–3006 Bern
Reservas: (031) 368 1415

Com toda a certeza o turista que passar por Berna incluirá em seus passeios a visita ao Bärengraben (Fosso dos Ursos). Os ursinhos ficavam antigamente em um lugar menor; desse antigo fosso, foi inaugurado em outubro de 2009 um anexo de 6000m2, à beira do Rio Aare, o rio mais limpo da Europa. No Altes Tramdepot é assim: o Aare, os ursos e um restaurante avarandado com boa comida onde se aprecia boas cervejas feitas por eles, e que, além de tudo isso, tem vista privilegiada para a Cidade Velha. Os preços são bons e o ideal é ir na hora do almoço. O edifício, construído em 1889, já fora utilizado como depósito de bondes, como garagem e como depósito de elementos cenográficos do teatro de Berna. O restaurante foi inaugurado em 1998 com capacidade para até 400 pessoas. A varanda e o jardim (Beer Garden) acomodam os lugares mais disputados do Altes Tramdepot, com uma vista fantástica da Cidade Velha do outro lado do rio, tal qual uma cidade de conto de fadas.

A principal atração em seu interior é a charmosa micro-cervejaria situada já na entrada do restaurante. De maneira artesanal, fazem vários tipos de cerveja, pelo menos duas vezes por semana, para os turistas e habitués. Além de oferecerem no cardápio pratos da cozinha internacional, servem comida para ser acompanhada com cerveja, como por exemplo os típicos embutidos suíços ou a tradicional salsicha branca (Weisswurst), especialidade da Bavária. Recomendação do garçom, esta repórter bebeu a Tram Märzen Bier e provou salsicha de alce com batatas, diferente e uma delícia.

À porta do restaurante o turista ainda encontra uma loja de souvenirs, um centro de informações turísticas e o BernShow, um teatro com espetáculo áudio-visual sobre a história de Berna.

A dica é passar a tarde na Cidade Velha, ir à Torre do Relógio e jantar no Kornhaus Keller
Divulgação
A dica é passar a tarde na Cidade Velha, ir à Torre do Relógio e jantar no Kornhaus Keller

Kornhaus Keller
Kornhausplatz, 18 – 3000 Bern 7
Reservas: (031) 327 7272

Em alemão, Kornhaus significa casa de grão, de cereal. Keller significa porão. O edifício foi construído entre 1711 e 1718. O estilo é conhecido em Berna como Alto Barroco Bernense. O gigante porão já foi mercado de grãos, centro de venda de vinhos em barris, depósito e taberna. Em 1897, o pintor Rudolph Münger propôs, a fim de valorizar o espaço, um porão mais colorido, com inspiração na arte Pré-Rafaelita e no emergente estilo Art Nouveau. Münger representou todos os costumes e tradições bernenses da época. Incluiu ainda temas mitológicos e fez homenagem às mulheres de Berna. Esses belos frescos podem ser vistos até hoje nas paredes, pilares e arcos que compõem o grande salão do restaurante; o espaço é monumental, vale a pena perguntar aos garçons poliglotas (alguns falam português) sobre algumas pinturas mais significativas. Inaugurado em 1998, bem localizado, o passeio está completo do início da tarde até a hora do jantar: basta passar o dia na Cidade Velha, sob as arcadas medievais, visitar o Zitglogge (Torre do Relógio) e jantar à luz de velas no Kornhaus Keller, tudo à pé.

Cozinha italiana de regiões específicas “arcaicamente simples” e cozinha tradicional bernense dominam o cardápio. Recebem ostras frescas duas vezes por semana. Os preços são médios: um carré de vitelo com alecrim, batatinhas assadas e salada verde custa algo em torno de 75 reais. O menu degustação de frios bernenses, 60 reais. A carta de vinhos concentra principalmente clássicos provenientes da Itália e da França; ao abri-la já lemos os dizeres orgulhosos: “assumimos a responsabilidade pelo vinho dentro da taça”. Giles Moser, diretor de eventos e vendas do Kornhaus Keller, nos conta quais são os três segredos do sucesso: uma sala histórica única com ambiente inesquecível (450 lugares), hospitalidade e atenção aos detalhes e uma grande experiência com clientela internacional. É conferir.

Pratos da cozinha contemporânea do Mille Privè: prestigiado nos guias gourmet
Divulgação
Pratos da cozinha contemporânea do Mille Privè: prestigiado nos guias gourmet

Mille Privè – Urs Messerli
Dorf,48 3116 Kirchdorf
Reservas (031) 781 1834


Mille Privè é o restaurante do chef Urs Messerli, que tem boas avaliações nos prestigiados guias Gault Millau 2010 (15 Pontos), Guide Bleu 2010 (82 Pontos) e, a mais recente, do Guia Michelin Suíça, no qual foi reconhecido como jovem chef da Europa 2010.

A idéia de Urs é reinventar os ingredientes do mercado com respeito pelo produto, pela região e tradição. Apesar de nos confessar usar de vez em quando produtos brasileiros como café, pimenta e maracujá, as principais matérias-primas de sua comida são os produtos regionais da estação. É possível optar pelo menu à la carte (quatro porções, 150 reais, sem bebidas), o menu de “mimos” (seis porções-surpresa, incluindo vinhos, a pouco mais de 420 reais) ou, ainda, pelo “menu sensorial” (para ocasiões especiais como reuniões de negócios, aniversários e jubiieus), em geral servido para dez comensais ou mais -- uma viagem completa de entradas e pratos especiais intercalados com diferentes vinhos, sobremesa e café. Há o menu sensorial pequeno, por 420 reais e o grande, a 580 reais por pessoa, com bebidas. Urs Messerli também prepara banquetes, dá conferências e organiza cursos de gastronomia, aromas na cozinha, especarias, harmonização etc... sempre para pessoas da área de alimentação em pequenos grupos.

Para chegar ao Mille Privè é preciso sair de Berna e seguir em direção à Kirchdorf. É bem perto. Pode-se chegar de trem ou utilizar o serviço de limousine do restaurante, mas, de carro, a estradinha vale o passeio: durante quase todo o percurso, vales e fazendinhas compõem a paisagem com os Alpes ao fundo. Ao chegar ao Mille Privè, você será recebido pessoalmente por Urs Messerli e, provavelmente, ele vai convidá-lo a conhecer sua cozinha. Vale a pena também conhecer a galeria de arte, um dos ambientes do restaurante. Antes de partir, uma última dica: Urs Messerli, antes do Mille Privè, tinha um restaurante fantástico chamado Spycher, que quer dizer "sótão" em suíço-alemão. Além de boa comida, ao final da refeição, ele conduzia os clientes até o sótão para o cafezinho. Um lugar decorado com a maior coleção de jukeboxes do mundo, todas funcionando, uma agradável surpresa. O Spycher mudou de nome e de filosofia mas a coleção de jukeboxes está mantida no prédio ao lado do Mille Privè, em um museu. A pedida é embarcar na viagem contemporânea de Urs Messerli e ficar próximo aos Alpes Suíços ao som de canções antigas das jukeboxes.

Sobre a Suíça

A Suíça é o somatório de várias regiões que paulatinamente foram se unindo, ora por interesses comerciais, ora por união de forças contra algum inimigo. A primeira união oficial aconteceu em 1848 com a Primeira Constituição. Era região de passagem, motivo de busca por poder e controle das rotas transalpinas entre o sul e o norte. Região montanhosa e fria, a dificuldade de povos conquistadores imporem seus regimes era grande. Os resistentes habitantes daquelas terras foram se organizando devagar. Fatores políticos, territoriais e constitucionais influenciaram o processo de formação do Estado moderno suíço. A partir da Idade Média, a divisão por cantões se fez cada vez mais visível. Surge um pais pequeno e heterogêneo, dividido entre forças na cidade e no campo, um Estado neutro desde 1515.

O país tem uma população de 7,4 milhões de habitantes sendo 20% residentes estrangeiros – 0,1% da população mundial vive na Suíça, que não pertence à União Européia. Sua moeda corrente é o franco-suíço (SFr). Curiosidade: os banheiros públicos suíços, considerados os mais limpos e bem equipados do mundo, reflexo de um povo para lá de civilizado.

Lugar de cultura, ciência e economia prósperas, é o pais da indústria relojoeira, da indústria farmacêutica, da engenharia, da hotelaria, do chocolate, do queijo, dos bancos, do turismo, da cruz vermelha, do tenista Roger Federer, do arquiteto Le Corbusier, da bond girl Ursula Andress e da Nestlé (só para citar alguns).

A Suíça fica no coração da Europa Ocidental, uma grande vantagem para quem gosta de viajar, como apontam os próprios suíços. Ao norte, faz divisa com a Alemanha. A leste, com a Áustria e o Principado de Liechtenstein. Ao sul, estão a Itália e, a oeste, a França. Num piscar de olhos, qualquer um desses destinos está ao alcance do volante ou do bilhete do trem. Quem preferir viajar somente dentro da Suíça, pode percorrer uma extensão leste-oeste de apenas 350 quilômetros, onde vai encontrar culturas de quatro regiões linguísticas diferentes, cada uma com hábitos e costumes próprios, uma descoberta a cada vale, a cada cidade e a cada conjunto de montanhas entre uma curva e outra.

Comunidades linguísticas no pais

Alemão – região mais extensa. Dos 26 cantões que formam a Comunidade Helvética, 17 são de língua alemã. Há dialetos que variam de região para região, por exemplo, no cantão de Zurique de língua alemã o dialeto tem diferenças do dialeto falado no cantão de Lucerna, também de língua alemã. Se comunicam entre si em dialeto e também falam o alto-alemão a partir da idade escolar.

Francês – são quatro cantões: Genebra, Vaud, Neuchatel e Jura. Cantões de Berna, Friburgo e Valais são bilíngües (francês e alemão).

Italiano – o italiano é falado no cantão de Ticino e em alguns vales ao sul do cantão de Graubünden.

Romanche – o cantão de Graubünden é multilíngüe. Lá se fala alemão, italiano e romanche que é uma língua de origem latina, apenas 0,5% da população a fala.

Todo suíço-alemão estuda francês e todo suíço-francês estuda alemão, é obrigatório. Italiano é matéria optativa. O resultado, cidadãos poliglotas já no início da idade adulta.

A Comunidade Helvética tem uma superfície de 41.285 quilômetros quadrados e tem duas cadeias de montanhas importantes: a Jura ao norte e os Alpes ao sul. Entre elas um planalto com a maioria das cidades.  Nenhum oceano a banha. No entanto, conserva em seu território 6% do total dos recursos de água doce da Europa. Três dos rios europeus mais importantes nascem lá: o Reno, o Inn e o Rhône. Possui mais de 1500 lagos, os maiores são o Lago Constanza e o Lago de Genebra (Lac Lemán), o maior depósito de água potável da Europa Central.