Tamanho do texto

A dificuldade de comer um pão na chapa sem sentir cheiro de estrogonofe fez nascer um novo tipo de estabelecimento em São Paulo

A Julice vende pães artesanais e, apesar de aberta há pouco, tem jeito de padaria antiga
Divulgação
A Julice vende pães artesanais e, apesar de aberta há pouco, tem jeito de padaria antiga
Durante décadas, padaria era aquele local aonde a gente ia para comprar um pão quentinho, assado na hora, e fazer um rápido lanche, com um prosaico sanduíche de mortadela ou um pão na chapa acompanhado de um cafezinho de coador. Nos últimos anos, no entanto, as padarias de São Paulo foram se transformando em versão mais compacta de um supermercado ou em megalojas de conveniência onde a maior parte do espaço é dedicada aos bufês por quilo, aos alimentos industrializados e a produtos que nada têm a ver com a função primordial daquele espaço, como pilhas, produtos de limpeza, revistas, livros e brinquedos.

Quem visita essas enormes lojas – que, sabe-se lá por que, ainda carregam o nome de padaria -- se sente entrando em uma daquelas caóticas paradas de beira de estrada, com comandas eletrônicas, catracas na saída, mesas de fórmica para refeições completas, longos corredores de prateleiras e geladeiras carregadas de bebidas, bolos, comida congelada, salgadinhos de pacote, chocolates e biscoitos. Lá no fundo, um tímido balcão oferece pães.

Leia também: Aprenda a fazer o verdadeiro pão de queijo mineiro

“Sinto falta das boas e velhas padarias onde a gente encostava no balcão e pedia um simples pão na chapa e uma média de café com leite”, suspira a advogada Rita Mesquita. Ainda bem que algumas resistem a essas novidades e invencionices.

Curta a página do iG Comida no Facebook e siga no Twitter

O novo de modelo de padaria paulistana é misto de restaurante, loja de conveniência e afins
Divulgação
O novo de modelo de padaria paulistana é misto de restaurante, loja de conveniência e afins
Para crescerem, as atuais megapadarias atiram para todos os lados na tentativa de conseguir mais e mais clientes. Atualmente, tem lojas que, além de pizzas, pratos rápidos e sanduíches, oferecem um bufê de sushis, sashimis e outras especialidades japonesas.

Há ainda quem evite lugares assim justamente por não terem mais aquele atraente e irresistível cheirinho de pão quente. Hoje em dia, o mais comum é entrar numa padaria e sentir o cheiro do estrogonofe que está há horas fervendo no rechaud do bufê por quilo ou da gordurosa coxinha que acabou de ser frita e está suando dentro da estufa.

Leia também: Dez passos para um bom pão caseiro

Para evitar essa mistura, a Benjamin Abrahão encontrou uma solução inteligente para sua unidade nos Jardins (Rua José Maria Lisboa, 1.397, Jardins, tel. 11 3061-4004). No andar térreo de sua megapadaria, só ficam os pães, os bolos e o balcão de sucos e cafés. No andar superior é que são servidos os sanduíches e os pratos mais elaborados do almoço executivo. Nesta loja, a venda de pães e bolos representa apenas 20% do faturamento total do negócio. Mas lá, pelo menos, os produtos de panificação ainda recebem um tratamento digno, com um bom espaço e posição de destaque.

Prateleira de pães da Marie Madeleine
Divulgação
Prateleira de pães da Marie Madeleine
As novas (velhas) padarias
A sorte é que os pães ainda são produto primordial na dieta dos paulistanos, que, assim como já fizeram com os vinhos, com os cafés e com os chocolates, a cada dia buscam consumir itens de melhor qualidade. Segundo o Sindipan (Sindicato da Indústria de panificação e Confeitaria), cada cidadão que vive na capital consome aproximadamente 45 kg de pão por ano, em média, o que equivale a quase 1 quilo por semana.

Leia também: Pães brasileiros

Por conta disso, multiplicaram-se pela cidade as boulangeries e padarias gourmet. Nesses lugares, os pães - em geral elaborados com fermento natural – são as estrelas da casa, sem ter de disputar espaço com outros produtos.

Clique aqui e aprenda a fazer pão de especiarias

Cada local tem a sua especialidade: na Julice (Rua Deputado Lacerda Franco, 586, Pinheiros, tel. 11 3097-9144), o forte são as receitas elaboradas com fermento natural tipo levain, de casca mais crocante e interior bem úmido. Não dá para resistir a delícias como o de passas, gorgonzola e nozes, o de linguiça calabresa com vinho Beaujolais ou o de figos secos com provolone. Na Siete Molinos (Alameda Lorena, 1.914, Jardins, tel. 11 3063-4433), a dica é pedir um saudável pão de linhaça com azeite ou um luxuriante caracol recheado de chocolate belga e pistaches.

Leia mais: Padarias orgânicas

Pão de calabresa e vinho Beaujolais da Julice
Divulgação
Pão de calabresa e vinho Beaujolais da Julice
Na elegante boutique Marie Madeleine (Rua Afonso Braz, 511, Vila Nova Conceição, tel. 11 2387-0019), o premiado boulanger francês Jean Louis Clément e a confeiteira Izabel Pereira oferecem deliciosos croissants, pain au chocolat, chausson aux pommes (folhado de maçã) e brioches, além de lindos doces renovados diariamente. Na PAO (Rua Bela Cintra, 1.618, Jardins, tel. 11 3384-6900), os destaques são os scones (pão de minuto escocês), os gougéres (versão francesa dos pães de queijo) e o tentador bolo de chocolate feito com cacau 70% e lâminas de caramelo. Por fim, a discreta Santo Pão (Rua Pio XI, 2.174, Alto da Lapa, tel. 11 3021-0985) também tem excelentes opções feitas artesanalmente e com ingredientes selecionados. Prove o mineirinho (de fubá com linguiça) e os pães que levam farinha de uva, fibra de maçã e erva-doce com açúcar mascavo em sua composição.

Clique aqui e confira receita de brioche caseiro

E, agora que você já conhece os melhores pães artesanais da cidade, escolha aquele que melhor casa com o seu apetite e caia de boca sem culpa. Afinal o pão, além de ser um alimento sagrado, é gostoso, nutritivo e, não bastasse tudo isso, a gente merece ser feliz!

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.