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A maneira de comer dos franceses agora é patrimônio imaterial da UNESCO e país anuncia criação de um centro cultural gastronômico

Getty Images
"Gastronomia é comer bem”, disse a historiadora francesa Julia Csergo
Os franceses têm muito o que comemorar. A maneira de comer e a culinária do país agora fazem parte da lista do patrimônio imaterial da UNESCO, um compêndio que reúne de danças clássicas a línguas em extinção ( veja aqui ). O anúncio foi feito na semana passada, no Quênia, onde estava reunido o comitê da entidade, mas a coletiva oficial de imprensa – e a festa – que oficializou o lançamento aconteceu nesta sexta, na cidade de Tours, a oeste de Paris.

O primeiro ponto: como muito explicou Mauro Marcelo , colunista deste portal, não se trata de um prêmio para a cozinha francesa, mas para as manières de table desse povo. O modo como dividem a refeição em diversos pratos, seus acompanhamentos, o lugar de cada um na mesa, os pratos, copos. Ou seja, o ritual da refeição, sobretudo aquela dos dias festivos, que variou muito pouco na França desde o século XVIII até hoje. Tampouco se trata de premiar a produção dos restaurantes estrelados, como o uso da palavra “gastronomia” pode dar a entender. “Gastronomia é comer bem”, sacramentou, em Tours, a historiadora Julia Csergo, da Universidade Lumière-Lyon II, responsável pela redação do dossiê de candidatura.

A sede do Instituto Europeu de História e Culturas da Alimentação, em Tours: a ideia da candidatura francesa partiu daqui
Nana Caetano
A sede do Instituto Europeu de História e Culturas da Alimentação, em Tours: a ideia da candidatura francesa partiu daqui
Museu da comida

Na prática, se trata de reforçar a importância dessa art de table para os próprios franceses e visitantes do país, através de parcerias com escolas, incentivos para pesquisas e, a mais vistosa das ações, a criação de um centro cultural dedicado à gastronomia. Nos moldes das cités da ciência e da música, será um centro multidisciplinar com ateliês, exposições, degustações. Várias cidades concorrem para abrigar o projeto, entre elas Lyon, Bordeaux e, claro, Paris, que disponibilizaria um palácio na Place de la Concorde, no centro da cidade, para o museu.

Por que a coletiva em Tours? Porque é aqui que fica a sede do Instituto Europeu de História e Culturas da Alimentação (IEHCA), de onde saiu o projeto da candidatura, apresentada há quatro anos, a partir de uma ideia de Francis Chevrier, criador e diretor do instituto. Trata-se de uma rede europeia de mais de 400 pesquisadores (historiadores, antropólogos, chefs, jornalistas...) que estudam a alimentação sob um ângulo patrimonial e cultural.

A lista do patrimônio imaterial
Desde 2003, a UNESCO premia com seu selo a cultura. Ou seja, desde então, não são apenas monumentos arquitetônicos que merecem ser conservados. São duas as listas imateriais. A primeira, inclui manifestações que necessitam uma preservação urgente, ou seja, estão prestes a acabar. É o caso, por exemplo, das técnicas de tecelagem tradicionais da China e do rito da pesca coletiva no Mali. A segunda, onde está a maneira de comer dos franceses, é uma lista representativa, que não inclui nada que esteja em risco de extinção.

Na área da gastronomia, em 2010 foram contemplados, além da França, a cozinha tradicional mexicana, a dieta mediterrânea (numa candidatura apresentada conjuntamente pela Espanha, Grécia, Itália e Marrocos), além da arte do pão de mel decorado da Croácia do Norte.

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