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Em O Céu na Boca , pesquisador conta os segredos culinários de mosteiros e conventos

Histórias, orações, medidas e modos de preparo estão nas receitas do curioso livro O Céu na Boca
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Histórias, orações, medidas e modos de preparo estão nas receitas do curioso livro O Céu na Boca
Seios de Santa Ágata, corações de São Valentim, ossos de Santo Expedito e sapatinhos de Santo Hilário são algumas receitas que levam nomes de santos. Para os pecados capitais, existe o quindim dos sete pecados ou, mais específico, o bolo quinto pecado, a gula.

No livro O Céu na Boca (Ed. Tinta Negra, 2010), o professor e pesquisador Fabiano Dalla Bona reúne  aproximadamente 100 receitas originadas em conventos, mosteiros e abadias, numa tentativa de desvendar histórias, mistérios e segredos culinários de pratos cristãos.

As receitas de doces associadas ao amor, ao afeto e à bondade são maioria no livro. Entretanto, para quem aprecia pratos apimentados, também tem o filé do diabo ou linguine alla puttanesca, uma massa italiana associada à luxúria.

O texto é leve, bem-humorado e acompanhado de ilustrações delicadas. Na primeira das suas seis divisões, quando o autor detalha as receitas de santos, há orações e uma curiosidade: os pratos com nome de partes do corpo humano seriam tradicionalmente consumidos para o bem desses órgãos, a exemplo dos olhos de Santa Luzia.

No capítulo que trata da hierarquia religiosa, Dalla Bona explica a relação entre cargos eclesiásticos e os sabores dos mosteiros. As técnicas culinárias dos monastérios têm a ver com parte da função desses lugares: proporcionar alimentação aos frades itinerantes nas suas estadias durante viagens. O autor também menciona a influência histórica das comunidades religiosas nas práticas culinárias da sociedade.

É difícil não fazer a relação do provérbio (hoje banalizado, é verdade)  ‘é de se comer rezando’ ou 'para comer de joelhos' a cada receita apresentada por Dalla Bona. Temos a impressão de estar em uma cozinha de convento com frades e freiras dispostos a nos contar seus segredos gastronômicos. Porém, algumas das receitas do livro são impossíveis de se reproduzir atualmente, seja por falta de precisão em medidas seja por ausência de ingredientes nos dias atuais.

No que se refere ao calendário litúrgico, o autor detalha a tradicional e curiosa festa popular mexicana do Dia dos Mortos. Nessa ocasião, a típica receita do pan de muertos é consumida por todos os crentes na proximidade com os que morreram.

O livro ainda tem espaço para pratos que simbolizam lugares ‘menos’ santos, como afirma o autor. Receitas como ovos no purgatório ou feijões do inferno têm passagem breve, porém não menos curiosa.

Ainda sobram páginas para os sete pecados capitais. Os gulosos podem se deliciar com um penne all’arrabbiata (a ira), um bacalhau preguiçoso, que já demonstra seu pecado no nome, ou uma sopa de pedra, que simboliza a avareza.

O Céu na Boca pretende redescobrir sabores, mas também proporciona um contato leve com receitas históricas e o modo como foram documentadas. Finaliza tratando de pecados, mas deixa mesmo é a vontade de ‘comer como um frade’ como sugere outro dito popular.

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