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Em palestra na Espanha, chef do El Bulli fala sobre marketing e criatividade

Ferran Adrià:
Divulgação
Ferran Adrià: "Pouca gente se vendeu tão pouco quanto eu"
O chef e sócio do restaurante El Bulli (localizado na Costa Brava, litoral norte da Espanha), Ferrán Adrià, se autodefine como um criativo em essência, não como um artista. E sua reflexão é sobre a liberdade de criação, num mundo habitado por fortes marcas e conglomerados empresariais. Em abril último, em palestra para publicitários do Clube de Criativos de Barcelona (Espanha), Adrià divertiu a plateia ao dizer que vive sendo convidado para falar em eventos porque todo mundo pensa que ele também vai fazer a comida depois.

“Sou criativo, vendo criatividade. Não falemos de arte ou cozinha, mas de cozinha da criatividade”, teoriza. Para ele, ser essencialmente criativo na cozinha é odiar dogmas. “Os criativos têm liberdade. Mas é importante ter conhecimento, disciplina, ser valente e equivocado às vezes. Quem não se equivoca nunca, não faz nada. As auditorias criativas (monitoramento, revisão e reorganização de pratos e menu) são muito necessárias também. E o senso de humor é outro componente criativo muito importante. Além da necessidade de muito equilíbrio com as conseqüências”. Adrià compara a cozinha de 350 metros quadrados do El Bulli com uma Ferrari. “Não há melhor cozinha no mundo e pouca gente do meu meio criativo se prostituiu tão pouco quanto eu. No El Bulli eu não fiz o que não queria e as mudanças que fizemos me permitiram seguir criando livremente”, diz, orgulhosamente.

Marketing e gastronomia

Depois de contabilizar superficialmente o número de pessoas para as quais já falou -- uma palestra para 250 aqui, com carta branca, outra ali para mil e tantos ouvintes na Sorbonne etc. --,  Adrià faz questão de dizer que não faz palestras apenas por dinheiro e, ao mesmo, tempo confessa que não tem grandes preocupações com a própria imagem. Segundo ele, chefs de cozinha não são tão bem remunerados quanto se imagina -- embora ele próprio já tenha recebido propostas financeiras de "cifras malucas".

Atualmente, o El Bulli não tem uma equipe de comunicação e marketing. Há apenas uma pessoa que controla tudo. E isso para Adrià é o suficiente. Mesmo parecendo não dar muita importância ao assunto, o chef sabe que tem a máxima exposiçao na mídia. Seu El Bulli é considerado um dos melhores restaurantes do mundo -- neste ano, é verdade, ficou para trás no incensado ranking dos cinquenta melhores segundo a revista inglesa Restaurant, perdendo o primeiro lugar para o dinamarquês Noma. “Oh...o El Bulli não é mais o primeiro do mundo...que desastre...eu conheço apenas dois, três, quatro criativos de verdade no mundo todo”, comenta, sorrindo.

Carne de coelho

No início do ano, Adrià anunciou que entre 2012 e 2013 seu restaurante, que já tem funcionamento sazonal, estará fechado. Atualmente o três estrelas Michelin só abre seis meses por ano. “A notícia foi oficializada em janeiro deste ano em uma entrevista coletiva com 500 jornalistas", comentou. "O Financial Times dedicou um quarto de página ao fato. Na época, recebi até telefonema do diretor do El País quando tomava minha gim tônica em casa, contando-me que o New York Times anunciava o fechamento do El Bulli por dois anos com destaque. Minha mulher ficou em pânico. Não é um período sabático.Tenho a fundação El Bulli, não tenho filhos. Vou fazer o quê? Criar uma nova revolução. O que falta por aí é talento”, sentencia.

Para instigar a  plateia - poucos ali teriam o privilégio de saborear suas criações, já que as mesas são disputadíssimas a qualquer tempo - o chef encerra sua apresentação com algumas fotos do menu degustação do El Bulli. Mostra pratos e porções delicadas como as costelas de coelho e o lombo de coelho com molho de frutas vermelhas (o consumo desta carne é largamente incentivado na Catalunha por ser considerado um alimento saudável). Outras criações escolhidas pelo chef são o canelone de peixe, canapé com aves e ostras, além do ravioli de parmesão ao aroma de trufa branca, utilizada também em muitos outros pratos.

“Há muitos anos nós fazemos a cozinha radical, com muitas mudanças e a desconstrução de pratos. No início, até sem querer. Depois, fortemente determinados. Mas no início da carreira eu comecei copiando tudo da França”, diz o Ferrán Adrià, que aprendeu a pilotar panelas na carreira militar e nunca cozinhou em outro restaurante além do El Bulli.

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