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No descolado bairro londrino, uma feira, uma livraria especializada e um diminuto restaurante compõem um bom programa gourmet

Maio, final de primavera em Londres. Dias ensolarados antecipam o verão com céu azul, quase sem nuvens, e uma suave brisa. Ainda há sol perto das nove horas da noite de modo que a tarde parece não ter fim. Esse clima amistoso – completamente oposto ao do inverno – costuma prolongar-se até agosto. É um período em que a capital britânica se mostra colorida, receptiva e bem-humorada. Por isso, alguns programas ‘obrigatórios’ para os turistas que visitam a cidade se tornam ainda mais atraentes nessa época.

É o caso da feira de antiguidades, artesanato e alimentos da Portobello Road, uma das principais vias do bairro de Notting Hill. Descolado, repleto de livrarias, galerias de arte e cafés, esse pedacinho de Londres ganhou fama quando serviu de cenário para o filme Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant. Na ficção, a feira da Portobello Road virou pano de fundo para as andanças do personagem de Grant, que morava e trabalhava no bairro. Em um sábado quente e bastante movimentado, a reportagem do iG Comida bateu pernas por lá.

Legumes na feira da Portobello Road, em Notting Hill: tudo fresquinho
Marcela Besson, iG São Paulo
Legumes na feira da Portobello Road, em Notting Hill: tudo fresquinho
Universo particular
Na saída da estação de metrô Notting Hill Gate, o fluxo intenso de turistas na calçada, à direita, funciona como uma seta em direção a Portobello Road. Com apenas três minutos de caminhada chega-se ao quarteirão inicial da rua, que ostenta o mais antigo pub de Notting Hill, chamado Sun in Splendor.

Seguindo em frente, as primeiras barraquinhas da feira, dedicadas ao comércio de antiguidades e artesanato, estão instaladas a partir do cruzamento com a Chepstow Villas. Nesse bloco, curiosos e colecionadores dividem espaço para conferir as peças à venda, enquanto artistas de rua povoam os poucos espaços vazios tocando jazz ao vivo. O ritmo é de festa e o visitante se distrai entre louças antigas, itens de decoração vintage e acessórios retrôs.

Avançando mais algumas quadras na descida da Portobello Road, alcança-se, enfim, a esperada seção de alimentos. Dispostas lado a lado, dezenas de barracas de frutas, verduras e legumes exibem uma profusão de cores e aromas. Cenoura, tomate, pepino, alho, aspargos, cogumelos: tudo parece vivo, recém-saído da terra. Até aqui, não há muita diferença entre as feiras livres brasileiras, que também exibem um sem fim de produtos frescos e perfumados. Vale até arriscar o palpite, feito sem nenhuma base científica, de que as nossas feiras ganham em variedade de frutas, vegetais, verduras e temperos.

Por outro lado, é preciso considerar que a de Notting Hill não se pretende definitiva. Ela é relativamente pequena e, mais do que turística, nasceu para atender ao público local, em dias comuns da semana. E é justamente essa particularidade que a torna charmosa. Passeando por lá, o estrangeiro experimenta a sensação de ser um pouquinho londrino. Os feirantes são discretos. Não fazem piadas, muito menos disputam a clientela no grito na hora da xepa.

Câmera fotográfica em punho, retornamos à condição de turistas ao clicar com curiosidade ruibarbos, blueberries e framboesas silvestres. Sim, o Brasil também tem esses produtos. Mas aqui, eles não aparecem para nós com a mesma pujança e brilho. No caso das frutinhas vermelhas, estamos acostumados a encontrá-las congeladas e com preços altíssimos, especialmente as frescas. Lá elas são muitas e quase corriqueiras porque, mesmo não sendo necessariamente nativas, se aclimataram bem à região, em função do clima e do solo. Estão na mesa do café da manhã, na forma de geleias e recheios de tortas e doces.

A framboesa silvestre é pequena, vermelhinha, agridoce e muito perfumada. Seu bago é frágil e suculento. A dulcíssima amora-preta é ainda mais delicada e tende a se desmanchar ao ser tocada. Já o ruibarbo é um capítulo à parte. Classificado como fruta por uns e como legume por outros, é cultivado na Europa, Estados Unidos e em partes da Ásia. Mas os ingleses é que ficaram conhecidos por explorar suas qualidades culinárias. As folhas da planta concentram um ácido tóxico e, por isso, são desprezadas no preparo. Sobram os caules, finos, rosados e tenros. São consumidos cozidos e seu gosto ácido pode ser bem aproveitado tanto em pratos salgados quanto doces.

Vitrine da livraria Books for Cooks, em Notting Hill: 8 mil títulos gourmets nas prateleiras
Marcela Besson, iG São Paulo
Vitrine da livraria Books for Cooks, em Notting Hill: 8 mil títulos gourmets nas prateleiras
Pelos arredores
Quando a Portobello Road encontra a Blenheim Crescent, vale a pena fazer um pequeno desvio de rota. Nesta pequena rua mora a Book for Cooks , uma livraria-café capaz de arrancar suspiros dos aficionados por assuntos culinários. O lugar foi inaugurado em 1983 por Heidi Lascelles, uma enfermeira inglesa interessada na boa alimentação. Na época, Heidi preencheu as prateleiras de sua livraria com títulos ligados à gastronomia. No fundo do salão, criou uma cozinha experimental para testar as milhares de receitas contidas nos livros. Teoria e prática, ao alcance das mãos.

Hoje os proprietários são outros, mas a fórmula inicial foi mantida. São mais de 8 000 obras especializadas. Nas cinco mesinhas do café, é possível provar almoços rápidos, além de tortas, bolos e biscoitos doces. A casa ainda mantém no piso de cima um espaço para workshops, com calendário regular de cursos que pode ser conferido no site da livraria .

Outro endereço interessante na vizinhança é o Ottolenghi , na Ledbury Road, paralela à Portobello. São quatro unidades na cidade; a de Notting Hill é a matriz. Por ali não se ouve o burburinho da feira, mas os pratos disponíveis no diminuto restaurante parecem ter vindo direto das barraquinhas. Há dezenas de saladas fresquíssimas e outras receitas leves preparadas com ingredientes orgânicos e sazonais. Os preços variam de 8,90 a 14,90 libras. Você pode encontrar um lugar na mesa comunitária, com capacidade para dez pessoas, ou adotar o habitual estilo take away dos ingleses e levar a comida para saboreá-la em outro cantinho de Notting Hill.

Mercado Portobello Road
Sábado, 8h-16h / Metrô Notting Hill Gate (Linhas Central, Circle e District)

Visite nos arredores:
> Book for Cooks

4 Blenheim Crescent

> Ottolenghi
63 Ledbury Road

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