Tamanho do texto

Conheça as comidinhas típicas, na hora da merenda, em países como Egito, Japão e... Trinidad e Tobago

Convidamos cinco estrangeiras, que moram no Brasil, para descrever as comidas típicas de seus países na hora do lanche. Muito além do típico chá da tarde inglês ou dos aromas irresistíveis do café com pão de queijo das quitandas de minas, visitamos os costumes do Egito, da Alemanha, do Japão, de Trinidad e Tobago e da Austrália.

Tradição alemã: a mesa arrumada com capricho tem delícias como strudel de maçã e pães de mel
Rita Grimm
Tradição alemã: a mesa arrumada com capricho tem delícias como strudel de maçã e pães de mel

Alemanha (Europa)

A alemã Annette Heinecke põe a mesa com delicadeza. “Para os alemães, a decoração tem a mesma importância da comida”, diz. “O ritual vai da escolha do forro das toalhas até a louça e os talheres.” Desde os oito anos de idade as crianças alemãs já se encontram para lanchar. Entre os adultos, essas refeições costumam ocorrer, durante a semana, entre as mulheres e são chamados de kränzchen.

A mesa farta pode ter chá, café com leite ou café puro e uma infinidade de delícias: pumpernickel (pão escuro à base de centeio e xarope de beterraba), strudel de maçã, pão de mel, vollkornbrot (pão integral), knäckebrot (um tipo de torrada alemã), torta de morango (a fruta é abundante na Alemanha), geleias caseiras, rahm (creme de leite de consistência firme) com cebolinha picada, iogurtes, manteiga e mel.

Quem chegou para o lanche no dia da reportagem foi a mãe de Annette, a artista plástica Margarethe Vogel. Ela lembrou que no pós-guerra os lanches eram outros. “Só era permitido comprar pão uma vez por semana com os cupons que tínhamos. Estocávamos frutas, grãos e batatas no subsolo gelado de casa até o ano seguinte. Agora, só quero me lembrar das longas tranças que eu usava e aproveitar o lanche com a Annette”.

Receitas australianas: as pies & pasties lembram empanadas
Rita Grimm
Receitas australianas: as pies & pasties lembram empanadas

Austrália (Oceania)

“Em termos de culinária local, não existe um lanche da tarde que seja típico, há influências de todo lugar”, afirma a artista plástica australiana Inna Cymlich Janse, que roda o mundo com suas exposições. “Apesar das influências multiculturais, muitos na Austrália se sentam à mesa para tomar o chá das cinco como os colonizadores ingleses”, diz, enquanto arruma a mesa para uma refeição mais completa.

Todos os ingredientes podem ser encontrados fora da Austrália, com uma exceção: a estrela principal do lanche australiano se chama vegemite e só existe na Oceania. É um creme bem salgado, feito à base de extratos de levedura de cerveja, de cor castanho-escura, com forte sabor. Rico em vitamina B, acompanha pães e torradas e é sucesso também entre as crianças. Qualquer australiano ou neozelandês não viaja sem um pote de vegemite na mala. “É sério, eles não 'vivem' sem vegemite. É o feijão com arroz dos australianos”, brinca Inna.

Ainda sobre a mesa, encontra-se um tipo de empanada recheada de carne, batata, cenoura e ervilhas chamada de pies & pasties. Outra tradição é o merengue pavlova. Desde que a bailarina russa Anna Pavlova dançou na Austrália, recebeu uma homenagem com os merengues que viraram tradição. Para beber, os australianos, como os ingleses, vão de chá.

Bebida egípcia: o café em pó bem fino é moído duas vezes e servido sem coar
Rita Grimm
Bebida egípcia: o café em pó bem fino é moído duas vezes e servido sem coar

Egito (África)

Nazli Vitali nasceu no Egito. Seu primeiro nome é uma homenagem à mãe de Faruk, último rei do Egito, morto em 1965. Mudou-se para o Brasil aos 15 anos e desde então sempre que pode volta para Alexandria, sua cidade natal, para matar a saudade do povo que descreve como hospitaleiro.

No Egito, o lanche da tarde separa homens de mulheres: os homens, depois da sesta, seguem para o Ahwa (café, em árabe) para jogar gamão, fumar, tomar café e beliscar salgadinhos e doces. Ficam por lá até umas seis da tarde. As mulheres raramente são vistas nesses locais. Elas costumam fazer o lanche em casa, onde reúnem-se para um encontro de todas as idades, da família ou não. “O egípcio-europeu prefere chá. O egípcio de origem bebe ahwa, café árabe”, explica Nazli. “O pó precisa ser bem fino. No Brasil, é só pedir para moer duas vezes”.

No lanche que preparou para a reportagem, Nazli usou uma kanaka (recipiente árabe para fazer o café). Mas a bebida pode ser feita na panelinha: para obter uma xícara, use uma medida de água, uma colher de chá de pó de café e uma colher pequena de açúcar. Fogo baixo. Quando ferver, desligue o fogo, despeje na xícara pré-aquecida e espere o pó baixar. Está pronto. “Há quem leia a sorte no pó da xícara, mas eu não sei...”

Para acompanhar, kahk (bolachinhas à base de farinha, água, sal e gergelim), sambousek (massa fina de farinha, óleo e água recheada com queijo, carne e espinafre), maamoul (massa de semolina recheada com tâmaras) e gorayeba (amanteigado).

Simplicidade japonesa: bolinhos recheados com feijão azuki, chá verde e de arroz integral torrado
Rita Grimm
Simplicidade japonesa: bolinhos recheados com feijão azuki, chá verde e de arroz integral torrado

Japão (Ásia)

Fica em São Paulo o Centro de Chadô Urasenke do Brasil, uma filial da Escola Urasenke de Kyoto, no Japão. Há mais de três séculos, a escola trabalha os fundamentos do Chadô, o Caminho do Chá. Soen Madoka Hayashi é diretora do Centro. Formada no Japão e profunda conhecedora da cultura japonesa, ela é professora do ritual de Cerimônia do Chá.

O Oyatsu é o nome do chá da tarde japonês, preparado originalmente pelas mães que esperam as crianças chegarem da escola. Os adultos também participam. “Os hábitos e costumes sofreram influências do ocidente, principalmente no Oyatsu. Hoje em dia, bolos e produtos industrializados fazem parte desses lanches. Mas procurei mostrar o que se comia há cinquenta anos também”, explica Madoka a respeito da refeição que montou sobre o tatame. “No pós-guerra, com a escassez de alimentos, o Oyatsu era simples: chá, legumes e verduras em conserva (nabo, batata-doce, milho, pepino etc.).

Farto, o chá preparado por Madoka teve ainda um toque de delicadeza: ela ornamentou a bandeja com sete flores representativas do outono japonês, época no Japão em que se vê a lua cheia mais bonita e quando os japoneses servem no Oyatsu saborosos bolinhos brancos no formato de lua cheia. De origem chinesa, os bolinhos são chamados de manju e são feitos à base de farinha de trigo e recheados de doce de feijão azuki. Foram servidos dois tipos de chá: de arroz integral torrado e verde. Para exemplificar os produtos industrializados, ela colocou biscoitinhos à base de arroz e alga marinha e ainda barrinhas doces de arroz.

Trinidad e Tobago: a receita original combina filés fritos de tubarão, manga e coentro
Rita Grimm
Trinidad e Tobago: a receita original combina filés fritos de tubarão, manga e coentro

Trinidad e Tobago (América Central)

Colonizados e colonizadores (indígenas, africanos, chineses, indianos, espanhóis, holandeses, franceses, ingleses etc) deixaram no Caribe um pouco de seus hábitos e costumes. A culinária, portanto, é multicultural em lugares como Trinidad e Tobago. “Tobago manteve-se mais “africana” e Trinidad, de um modo geral, abrigou as culturas dos espanhóis, ingleses, franceses e orientais”, observa Siobhain Allum. Ela saiu de Trinidad e Tobago com dezessete anos e foi viver na Inglaterra. Hoje mora em São Paulo e é diretora de uma escola britânica. “Com o tempo fui me distanciando da comida do Caribe, mas ultimamente senti vontade de retomar, pois meus filhos gostam muito”, diz.

Siobhain preparou o Bake and Shark. O sanduíche típico das regiões praianas é feito para comer em casa ou na rua. A massa frita, à base de farinha de trigo, fermento, sal e água, é recheada de filés fritos de tubarão (a carne pode ser substituída pela de cação, tilápia ou peixe-gato), manga ralada com gotas de limão, coentro, folhas de alface e uma boa pimenta caseira.

“É um tipo de comida que pode ter diferentes combinações: ingredientes de salada, molhos de tamarindo, de pimenta, folhas de coentro, pedaços de abacate.” Para beber, Siobhain sugere suco de limão com gotas de angostura, um bitter original de Trinidad e Tobago, ideal para aplacar a sede no calor tropical.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.