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A história de restaurantes que servem, todos os dias, tudo sempre igual

Anote o nome desses restaurantes: em São Paulo, LEntrecôte de ma Tante. Em Paranaguá, no Paraná, Casa do Barreado. Em Olinda, Pernambuco, Casa da Noca. Já o quase impronunciável Abendbrothaus fica em Blumenau, Santa Catarina. Todos esses lugares têm uma coisa em comum: o inabalável, ao menos até o momento, cardápio de um prato só.

Nessas casas, como na música Cotidiano, de Chico Buarque, todo dia é tudo sempre igual. Pelo menos na cozinha. Sem muitas nuances, o chef já sabe o que o cliente vai pedir.

Normalmente, a estrela da casa é alguma receita de família. O prato é preparado, sempre com muito rigor, sob os preceitos de alguma mãe, tia, avó.

Conheça cada um deles

São Paulo (São Paulo)
LEntrecôte de ma Tante
O que serve:
contrafilé com molho e fritas

Ao chegar, o cliente escolhe o ponto da carne. A sequência da refeição começa nos pães, segue para a saladinha, e o prato principal: um contrafilé banhado em molho de ervas. Fritas, à vontade. Tudo por 47 reais. (Para acompanhar, sim, há vinhos não muito caros, na faixa, dos 50 reais).

Entre as sobremesas, sobressai-se a musse de chocolate, cobrada separadamente, mas servida à vontade, até acabar, por um preço único.

Um dos proprietários da casa é o cozinheiro e padeiro Olivier Anquier, que diz ter optado pelo menu único por estar receoso de se lançar no mercado de restaurantes como mais um dono de bistrô. Apostou em uma receita de família e em uma fórmula relativamente manjada na França. A mesma de endereços parisienses como o Relais de lEntrecôte. Anquier calcula que são servidas, em média, 350 refeições por dia. E, segundo ele, metade repete a visita.

O entrecôte com molho e fritas é um trivial francês, normalmente servido em família aos domingos. O que diferencia cada receita é a mão de quem prepara. A fórmula do restaurante de Anquier é a mesma de sua tia (por isso a casa se chama O entrecôte da minha tia, em português).

Contrafilé com fritas do L'Entrecôte de ma Tante


Olinda (Pernambuco)
Casa de Noca
O que serve
: macaxeira, carne de sol e queijo de coalho

No fim dos anos 70, Eraldo Leite Pereira morava com a família perto de uma universidade. Como o movimento era intenso, ele aproveitava para vender refrigerante e cerveja aos estudantes. Certa vez, um grupo de clientes perguntou se havia algo para acompanhar a bebida. A família tinha preparado para o jantar macaxeira frita (mandioca) com carne de sol ¿ único prato servido até hoje pelo Casa.

O sucesso foi imediato e, no final de semana seguinte, mais pessoas apareceram até que Eraldo abriu o restaurante em que a grande atração é o combinado macaxeira, carne de sol e queijo de coalho. São servidas, em média, quarenta refeições diárias. O prato é suficiente para o apetite de duas, três e até cinco pessoas, a 30, 40 e 60 reais, respectivamente.


Blumenau (Santa Catarina)
Abendbrothaus
O que serve
: marreco recheado

O Abendbrothaus funciona apenas sob reserva, aos domingos, quando a família Jinsin, liderada por Josefa e Reni, tira folga no trabalho e se dedica à casa. A receita do marreco é secreta, herdada da avó de Josefa. O peito e a coxa do marreco são assados em forno a gás e chegam à mesa na companhia de miúdos, mais: repolho roxo, língua bovina e purê de maçã.

Já houve uma tentativa de incrementar o cardápio com outros pratos. Não deu certo. O público só quer saber do marreco. O prato (peito e coxa assados em forno a gás) com sobremesa e café custa 38 reais e é individual.

A cada domingo Josefa calcula que saem da cozinha 100 porções. Turistas de todo o estado e até de outros locais do Brasil vão a Blumenau para comer o marreco Jinsin, uma referência na região.

Marreco recheado do restaurante de Blumenau


Paranaguá (Paraná)
Casa do Barreado
O que serve
: barreado

O barreado é um cozido. A carne de peito do boi é preparada em panela de barro vedada por uma massa de farinha que impede o escape do calor. Vedar a panela dessa forma significa barrear. Sem querer cometer nenhuma injustiça, a fama do barreado é de único prato típico do Paraná.

Tradicionalmente, o barreado é servido com cachaça ¿ existe uma lenda de que se for consumido na companhia de água a indigestão é fatal. Três cidade brigam pela origem da centenária receita: Antonina, Morretes e Paranaguá. É nesta última que fica a Casa do Barreado, pilotada por Norma Santos de Freitas e por sua família.

Aos tropeiros do Rio Grande do Sul também já chegou a ser atribuída a autoria do barreado, mas a história mais difundida (e defendida por Norma) conta que o prato nasceu no litoral do Paraná.

A Casa do Barreado existe desde 1996. O objetivo do restaurante é divulgar esta receita do jeitinho que ela tem de ser: horas e horas de panela de barro, diz Norma. Preço por pessoa: 20 reais em esquema de bufê. O cliente prepara no próprio prato o pirão do caldo da carne com a farinha de mandioca e se serve do barreado. A escolta é completada por arroz e mandioca frita ou cozida. Cachaças da região e sobremesas feitas em casa estão incluídas no preço.

O barreado da Casa do Barreado, no Paraná


Serviço
L'Entrecôte de Ma Tante

Rua Doutor Mário Ferraz, 17, Itaim
São Paulo (SP)
Telefone: (11) 3034.5324

Abendbrothaus
Rua Henrique Conrad, 1194 (V. Itoupava), 26 km
Blumenau (SC)
Telefone: (47) 3378.1157

Casa de Noca
Rua Bertioga, 243, Carmo
Olinda (PE)
Telefone: (81) 3439.1040

Casa do Barreado
Rua José Antônio da Cruz, 78 (Ponta do Caju)
Paranaguá (PR)
Telefone: (41) 3423.1830

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