Não sou um flying winemaker, diz Paul Hobbs

Além de produzir os próprios vinhos, o enólogo tem trinta clientes espalhados pelo mundo, entre eles a argentina Catena

Viviane Zandonadi, iG São Paulo |

Getty Images
Tudo começou com uma taça de vinho de sobremesa Chateau D'Yquem

Em sua última passagem pelo Brasil para exibir tintos e brancos californianos de produção própria, Hobbs conversou com o iG Comida . Falou um pouco a respeito de sua trajetória e sugeriu roteiros de viagem.

Exceto talvez para os que possuem um conhecimento mais profundo do mundo do vinho e acompanham de perto a movimentação do mercado, o nome de Hobbs em um primeiro momento pode não parecer familiar. Ele não é midiático como Michel Rolland e, de fato, os respeitados vinhos californianos que carregam seu nome impresso no rótulo só agora começam a chegar ao Brasil - e não são baratos.

No entanto, talvez Paul Hobbs esteja mais perto do que você imagina, em algum vinho chileno ou argentino guardado na adega. Afinal, o enólogo é também consultor de trinta produtores pelo mundo, boa parte na América do Sul. Seu cliente mais famoso por aqui é a vinícola Catena, velha conhecida das prateleiras brasileiras.




iG Comida - Na noite do Château D'Yquem, sua família estava celebrando alguma coisa em especial?
Paul Hobbs
Acho que meu pai escolheu aquele vinho para acabar com a proibição da minha mãe, que não permitia bebidas alcoólicas na mesa da família. E também para celebrar uma nova fase nos negócios. Ele queria mudar. Sem aquela experiência arrebatadora para todo mundo, minha família não teria investido em vinhas. E eu também. A verdade é que estudei para ser médico. Nunca pensei em ser enólogo, muito menos produtor.

Depois da primeira taça vieram outras de Château D'Yquem? Suas impressões mudaram de alguma forma?
Cada vez eu gosto mais desse vinho. E tenho sorte. Por causa da minha história, recebo muitos presentes de Yquem de pessoas que eu nunca conheci. Não poderia ser melhor.

O primeiro vinho da sua vida é considerado o melhor do mundo na especialidade sobremesa. Seu primeiro emprego no ramo foi com Robert Mondavi, o mais influente viticultor da história da Califórnia. A Robert Mondavi é atribuído o mérito de elevar tintos e brancos californianos a um patamar de qualidade tão bom quanto o dos melhores da Europa. Que começo.
Se eu não tivesse provado o Château D'Yquem e ficado tão impressionado, não teria convencido meu pai a vender uvas para produtores de vinho. E não teria estudado enologia mesmo contra a vontade da minha mãe. Nos anos 70, depois de estudar muito na Califórnia, batalhei por um emprego nos Mondavi. Eles eram na época as pessoas que mais conheciam o vinho, sua história e tudo mais. Eu escolhi trabalhar lá, mas eles não me escolheram.

Não?
Recusaram o emprego várias vezes até que entrei em contato com um dos filhos, Tim Mondavi, e pedi ajuda. Quando consegui que me aceitassem, comecei trabalhando com pesquisas, porque tinha me especializado em envelhecimento de vinho em barricas de carvalho americano e europeu. Eu ganhava menos que um lavador de pratos. Um ano e meio depois, no entanto, fui deslocado para a Opus One, a joint venture de Mondavi com Baron Philippe de Rothschild no Vale do Napa. Isso foi nos anos 80. Era a fusão entre as tradições francesas e californianas de vinificação. Foi um momento muito importante para o mundo do vinho e para mim, que logo fui nomeado enólogo-chefe do empreendimento.

Algum tempo depois veio sua experiência na Argentina.
Sim, quando eu já havia saído da Mondavi, fiz uma viagem de trabalho para o Chile e, para ser franco, contra a minha vontade acabei cruzando a Cordilheira dos Andes para conhecer Mendoza e a região produtora de vinhos na Argentina. Resisti muito antes de ir, mas gostei mais do que vi na Argentina do que tinha visto no Chile até então. E conheci o produtor Nicolas Catena. Foi o começo da minha consultoria internacional. Catena tentava fazer vinho para exportação, mas não conseguia. Eu o ajudei nisso.

O que o consultor de vinhos faz exatamente? O que você fez para o Catena?
O que a vinícola Catena tinha era vinhedos plantados do jeito certo, mas o produto era manipulado do forma errada. Por isso não conseguiam fazer vinhos de qualidade. Tivemos de mudar todos os procedimentos e técnicas para trabalhar com as uvas e com o vinho. Depois de ajudar na técnica de produção, entramos também no marketing e na venda do produto, sobretudo para exportação.

Em suas entrevistas você costuma dizer que não é e não quer ser um flying winemaker. No documentário Mondovino, de Jonathan Nossiter, o famoso consultor Michel Rolland é apresentado como um flying winemaker. Sem entrar na discussão do enquadramento utilizado por Nossiter, que muitos consideram tendencioso, o que esse termo significa?
Você sabia que um dos primeiros trabalhos de consultoria de Rolland foi em uma vinícola em que trabalhei depois de deixar os Mondavi? Fui cliente dele. Não me sinto confortável para falar de Rolland, mas respondo à pergunta sobre o termo flying winemaker do modo como eu o entendo. Acho que se aplica a um sujeito que viaja de um lugar para outro sem ter ligações sólidas com o lugar em que trabalha. Vem, faz, manda a conta e vai embora. Eu não faço isso. Chego para trabalhar e preciso me ligar a tudo aquilo: à cultura, ao lugar, à terra. Me envolvo completamente, não tem outro jeito de fazer.

Você tem trinta clientes pelo mundo. Parece puxado.
Eu atendo pessoalmente todos os clientes. Com trinta, estou no meu limite, recuso muitos trabalhos. Não procuro, sou procurado. Acho impossível atender a 100 produtores de uma vez, então minha atenção é focada no Chile, na Argentina, na Europa e na Califórnia. É muito difícil trabalhar em outros lugares. Trabalhei no Uruguai, mas é complicado. Prefiro concentrar-me nos poucos.

Você conhece os vinhos brasileiros? Algum produtor já tentou contratá-lo?
Lamento, mas nunca trabalhei com o Brasil e não provei seus vinhos. Já fui procurado, mas não avançou. Não tenho nada também na África do Sul nem na Austrália nem na Nova Zelândia.

Como você escolhe seus clientes?
Tem de ter condições de produzir e alguma particularidade, não gosto de trabalhar com fórmulas e receitas. Cada produtor tem uma história para contar.

Não é fácil encontrar vinhos californianos no Brasil. E, quando encontramos, são relativamente caros. Por que?
A qualidade aumentou e os preços subiram muito e chegaram ao mesmo patamar de vinhos franceses de Bordeaux, por razões políticas até. E daí as pessoas pensam: "Hum, pelo mesmo preço posso comprar europeus, porque vou comprar americanos?". É uma questão cultural também.

Se eu lhe disser que quero conhecer um vinho californiano, por qual uva eu deveria começar?
Pode ser um bom chardonnay ou um bom pinot noir. Se tomar vinho ruim, não importa a uva, vai ficar desapontada e não vai em frente. Então você não vai necessariamente comprar os mais baratos. Tem de começar com algo bom para ganhar conhecimento e na sequência provar mais. Depois, pode avançar para cabernet sauvignon, sauvignon blanc... A Califórnia tem muita diversidade de topografia e terroir e oferece muito tipos de vinhos.

O que é um bom vinho para você?
Aquele que eu gosto de beber. Hoje pode ser um Bordeaux, amanhã um Borgonha. Um dia talvez um brasileiro. Preciso conhecer e gostar.

    Leia tudo sobre: vinhospaul hobbs

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG