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Autor defendeu receitas nacionais em sua mesa e na de seus personagens

Virado de feijão e quiabo com carne: Lobato defendia a comida de sustança
Luiz Henrique Mendes
Virado de feijão e quiabo com carne: Lobato defendia a comida de sustança
"Um país se faz com homens e livros”. Essa frase, quase desgastada de tão usada no meio educacional, é do escritor Monteiro Lobato (1882-1948). É bem provável que ele não se incomodasse se a ela fosse acrescentado: “Um país se faz com homens, livros... e uma boa gastronomia”. Nacionalista, Lobato criticava a elite pretensamente afrancesada e esnobe, que fazia receitas com ingredientes brasileiros e as batizavam com termos franceses. Defensor implacável das raízes, o escritor achava isso desprezível.

Todos conhecem Monteiro Lobato pelo clássico literatura infanto-juvenil Sítio do Pica-pau Amarelo , que virou seriado na TV no final dos anos de 1970. Assim como o escritor vive na memória de crianças de várias gerações, Monteiro Lobato se tornou uma paixão antiga para a jornalista Marcia Camargos.

Admiração que, na vida adulta, virou trabalho. Marcia enveredou para a pesquisa lobatiana e escreveu a obra À Mesa com Monteiro Lobato , em co-autoria com Vladimir Sacchetta. Lobato foi o escritor homenageado na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, e a autora falou sobre ele para o público, no módulo Cozinhando com Palavras.

Baseada na pesquisa que fez para o seu livro, Marcia discorreu sobre a relação da vida e da obra de Monteiro Lobato com a comida. “Todo o Sítio do Pica-Pau Amarelo alimenta”, diz. Por meio da tia Nastácia vai à mesa o virado de feijão com torresmos, os bolinhos de chuva e de polvilho e sempre um café coado na hora.

A mesa como confraternização

No Sítio do Pica-Pau Amarelo dona Benta, seus netos Narizinho e Pedrinho, o Visconde de Sabugosa e a boneca Emília estão sempre à mesa em momentos de confraternização ou, nas suas voltas das aventuras, cansados, buscando conforto nos quitutes de tia Nastácia.

A coletânea de receitas organizada por Marcia e Sacchetta reúne 64 pratos. Eles foram garimpados no caderno de receitas (que data de 1908) de dona Purezinha, esposa do escritor, na pesquisa das comidas típicas do Vale do Paraíba, interior de São Paulo, e ainda na obra Sítio do Pica-Pau Amarelo . “Lobato defendia a comida de sustança, aquela que conforta e que tinha muito a ver com o local em que ele morava”, diz Camargos.

“Na contramão da tendência de emular Paris, Monteiro Lobato ensina na sua literatura infantil, que a culinária nacional é uma das mais saborosas do planeta”, dizem os autores na obra À Mesa com Monteiro Lobato . Entre esses pratos caipiras que ele ressalta no Sítio do Pica-pau Amarelo, por exemplo, está a farofa de torresmo, o quiabo com carne, a marmelada e o bolo de fubá.

Em agosto, o restaurante Mercearia do Conde, de São Paulo, dedicou uma temporada a receitas tiradas do livro. Na entrada, bolinho caipira (em uma das versões é feito de farinha de milho amarela, com recheio de carne moída), a canjiquinha (ou quirera) simples com lingüiça e o escaldado de cambuquira (astes e folhinhas do broto da aboboreira), todas receitas muito emblemáticas do Vale do Paraíba. Como prato principal, costela assada com banana e virado de couve. Para encerrar, pudim de veludo e torta de banana. O café foi servido com bolinho de chuva da tia Nastácia e biscoito da sinhá.

Em episódio do Sítio, Tia Nastácia empanturrou o Minotauro de bolinhos de chuva
Luiz Henrique Mendes
Em episódio do Sítio, Tia Nastácia empanturrou o Minotauro de bolinhos de chuva
Bolinhos do minotauro

A comida na obra de Monteiro Lobato também tinha a conotação de sobrevivência. No episódio do Sítio em que tia Nastácia foi presa pelo Minotauro – figura da mitologia grega, que tinha cabeça e cauda de touro em corpo de homem e se alimentava de seres humanos – as crianças ficaram desesperadas pensando que não conseguiriam salvá-la antes do Minotauro a devorar. Mas o bicho foi pego pelo estômago. Como disse a Emília, ele até se esqueceu da mania de comer gente.

A culinária acreditada por Monteiro Lobato - e transferida para suas obras - tinha leitão à pururuca, torresmo e sobremesas de frutas como cidra, banana, limão e marmelo, diz Márcia. Peixes não aparecem muito no cardápio do escritor, só os de rio. Claro, naquela época, era difícil chegar peixe do mar no interior, por conta da conservação. Mas comida de milho tinha muita, como pamonha e canjica, que formam aqueles pratos caipiras de sítio.

Uma curiosidade sobre o escritor é que ele adorava rapadura. Carregava vários pedaços no bolso para ir comendo durante o dia todo. Também gostava muito de içá, uma espécie de formiga, já apreciada pelos índios, consumido até hoje na região na forma de farofa. O autor se refere à iguaria em vários textos de sua obra, ressaltando que o içá era “o caviar da gente taubateana”.

As referências gastronômicas da obra de Monteiro Lobato eram coerentes com as preferência cotidianas do escritor de Taubaté. Ao lado de sua esposa, dona Purezinha, apreciava a brasilidade no prato. Nos livros, ressaltava o sabor da simplicidade das receitas e dos ingredientes nacionais. E, ainda, avançado para sua época, pregava uma agricultura sustentável, baseada em plantas e frutas nativas. Foi um visionário.

Abaixo, veja as receitas do escaldado de cambuquira (no primeiro plano da foto) e do bolinho caipira
Luiz Henrique Mendes
Abaixo, veja as receitas do escaldado de cambuquira (no primeiro plano da foto) e do bolinho caipira

Escaldado de cambuquira
Ingredientes
1 pedaço de músculo
Ovos (um para cada pessoa que fortomar a sopa)
Farinha de milho ou mandioca
Cambuquira
Alho
Cebola
Louro
Tomate
Pimenta
Cebolinha verde

Modo de fazer
1. Cozinhe um pedaço de músculo, com bastante água e todos os temperos desejados, inclusive pimenta vermelha se quiser.
2. Limpe boa quantidade de cambuquira e deixe de lado.
3. Estando o músculo cozido, coe o caldo, deixe o músculo para ser usado em outro prato.
4. Acerte o ponto de sal do caldo e ali coloque a cambuquira para cozinhar.
5. Sirva em pratos fundos, colocando uma porção de farinha de milho ou mandioca, quebrando um ovo sobre a farinha e, em seguida, despejando o caldo bem quente, com a cambuquira.

Bolinho caipira ou mata-fome

Ingredientes
2 xícaras (chá) de farinha de milho
1 xícara (chá) de farinha de mandioca crua
Caldo de carne feito com 500 gramas de carne cozida em pedaços, com bastante tempero, cebola, alho, cheiro-verde e pimenta, sal a gosto, óleo para fritar.

Modo de fazer
1. Em uma vasilha, misture as farinhas e vá adicionando o caldo de carne fervente, misturando até ficar uma farofa úmida. Deixe esfriar um pouco. Amasse muito bem até ficar macia.
2. Pegue uma pequena porção de massa (1 colher de sopa mais ou menos), abrindo-se na mão. Recheie com porções de carne cozida, picadinha ou moída e refogada com temperos.
3. Frite em óleo quente.
4. Os bolinhos devem ter a forma de um croquete grande.

Serviço
À Mesa com Monteiro Lobato – Márcia Camargos e Vladimir Sacchetta, Editora Senac, R$ 58,00. 

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