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Cozinheiro catalão ficou conhecido por defender a valorização da cultura e dos ingredientes locais e criticar "chefs midiáticos"

Santi Santamaria: muitas estrelas Michelin, uma a menos na cozinha do mundo
Joan Pujol-Creus
Santi Santamaria: muitas estrelas Michelin, uma a menos na cozinha do mundo
O chef de cozinha catalão Santi Santamaría morreu hoje em Cingapura, aos 53 anos. Um dos cozinheiros mais celebrados da Espanha, Santamaría estava a trabalho no país, onde possui um restaurante de luxo chamado Santi. Segundo o site do jornal El País , Santamaría foi vítima de um ataque cardíaco enquanto estava no restaurante.

Conhecido por ser um opositor da cozinha de vanguarda espanhola (esta encabeçada pelo também famoso Ferran Adrià), Santamaría defendia com unhas e dentes a cultura culinária e os ingredientes de seu país. Alfinetava grandes multinacionais da indústria alimentícia e o uso excessivo de aditivos e conservantes nas comidas. Autor de nove livros, o chef era também reconhecido por ser um intelectual da gastronomia. "As cozinhas são como um idioma, uma forma de comunicação. Através da comida sabemos como as pessoas vivem", disse o chef em entrevista ao iG Comida em fevereiro de 2010 ( leia a íntegra aqui ).

Ao El Pais , Adrià lamentou a morte do colega. "Fora as discrepâncias, hoje é um dia muito triste para mim, para toda a equipe elBulli e toda a sociedade espanhola, porque morreu um grande cozinheiro", disse. "Santi deixou-nos um legado muito positivo, muitas questões para refletir", afirmou ao iG Comida Alex Atala, que destacou também a fidelidade do chef espanhol às suas crenças. "É indiscutível que ele era um grande regionalista e um dos mais cultos cozinheiros que conheci. Uma verdadeira enciclopédia." Segundo Atala, o espanhol passava por um grande momento da vida, em que acabara de voltar a trabalhar com o conceituado cozinheiro Xavier Pellicer no Can Fabes, restaurante de Santamaría localizado numa cidade próxima à Barcelona e que carrega três estrelas Michelin -- pontuação máxima do guia. Contando todos os restaurantes que tinha, o chef ostentava sete estrelas no mais importante guia gastronômico do mundo.

O chef espanhol Javier Torres, que comanda a cozinha do restaurante Eñe em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi informado da morte de Santamaría por um amigo que estava em Cingapura à frente da brigada do restaurante do chef catalão. "Trabalhei oito anos com Santi no Can Fabes e a generosidade era uma de suas maiores marcas. Sempre compartilhou muitas experiências comigo. Foi, com certeza, um mestre para mim", disse Javier. Ao relembrar as criações de Santamaría, Javier destaca uma que não lhe sai da memória: "Ele preparava um ravióli de camarões com cogumelos que era delicioso".

"Fiquei chocada. O dia de hoje é de luto para a gastronomia", declarou Joana Munné, conterrânea de Santamaría e sócia da Síbaris, empresa de produções gastronômicas que traz chefs internacionais ao Brasil. "Ele foi o primeiro chef que convidei para visitar o Brasil e, apesar da proximidade que tinha com ele, levei dois anos para conseguir". O espanhol esteve em São Paulo em 2000 para participar de um festival no restaurante Canvas, no Hotel Hilton, e para ministrar uma aula na Universidade Anhembi Morumbi. "Santi era um dos chefs mais cultos que conheci. Tinha uma coluna semanal no jornal da região, o La Vanguardia , em que prestigiava os ingredientes locais. Embora tenha morrido no auge de sua carreira, nos deixou um legado muito rico. É isso que conta", afirmou Joana. 

Para o chef Laurent Suaudeau, Santamaría foi merecedor do destaque que teve no cenário internacional porque prezava pelo respeito à própria terra, que dá a boa matéria prima para o trabalho de um cozinheiro. "Era uma voz contra toda essa onda de excessos da cozinha tecnoemocional. Ele defendia que a emoção é produto de um bom trabalho, de uma boa comida, com aromas e sabores naturais. Enfim, é uma voz nessa direção que some", lamentou Suaudeau.

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