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Atriz e apresentadora fala de sua trajetória à frente do programa de culinária À Moda da Casa, sucesso nos anos 80

Etty Fraser:
Rita Grimm
Etty Fraser: "Chegou uma hora em que as pessoas me conheciam mais pelo programa de culinária do que como atriz"
Perguntada sobre suas referências em termos de comida, a atriz Etty Fraser recorre à mãe. Nascida em 1931, no Rio de Janeiro, Etty cresceu comendo delícias preparadas por ela. “Mamãe era uma mulher que “frequentava”. Ela estudou Haute Études en Sciences Sociales, na Sorbonne. Em Paris, aprendeu a cozinhar e a receber. Nunca trabalhou. Dedicou-se ao lar. Cozinhava muito bem, fazia borscht (sopa russa à base de beterraba), fazia o verdadeiro estrogonofe com cogumelo seco e filé mignon em tiras fritas”, conta. “Era também uma doceira maravilhosa, cuidava sempre de nossas festas, muito inventiva. Papai era presidente da companhia inglesa Imperial Chemical Industries, que depois virou DuPont. Mamãe recebia os colegas dele com verdadeiros banquetes e era tudo feito por ela, tudo do bom e do melhor. E papai, pra resumir, foi um homem que comeu e bebeu bem toda a sua vida.”

Sabendo cozinhar apenas o trivial, mas dona de muito carisma, nos anos 80 Etty Fraser assumiu o comando de um programa chamado "À Moda da Casa". Por meio desse produto de culinária de sucesso na televisão brasileira, patrocinado por uma marca da indústria de alimentos, ela aprimorou seu repertório gastronômico e conquistou fãs fiéis. Nesta entrevista, a atriz fala sobre comida, a apresentadora Ofélia, lembra dos bastidores de seu programa e ainda ensina duas receitas consagradas da época do "À Moda da Casa".

iG: Você viveu três anos na Inglaterra, no pós-guerra. A mudança de alimentação foi significativa?
Etty Fraser: E como! Sempre fui gordinha. Chegamos, minha irmã e eu, para estudar num colégio interno, em 1946. Não havia nada na Inglaterra. Eu tinha 15 anos. Perdi 25 quilos. Aquela comida era um horror, não podia ser pior. Passávamos banha no pão, faltava açúcar, vivíamos à base de cupons. Aprendi a tomar chá sem açúcar para economizar meus cupons e comprar balas e chocolates. Meus pais mandavam todo mês uma caixa com latarias americanas, era o que nos salvava. Uma vez eu “aprontei” lá: na vendinha local, eu sempre via a propaganda de um chocolate, único painel do estabelecimento, uma imagem do Brasil, um homem descascando castanhas-do-pará com os dizeres: “Brazil, where the nuts come from” (Brasil, de onde vêm as nozes). Custava um shilling, era caro. Eu estava sem cupons. Um dia levei uma nota de dez shillings, pus sobre o balcão e disse baixinho, bem séria, olhando para o painel:”eu quero aquele chocolate ali”. Ele me respondeu: “Onde está o cupom?”. “Acabou”, respondi. “Mas o senhor pode ficar com o dinheiro”. O velhinho pegou seu próprio livro de cupons, me deu um e disse: “Agora compra!” E completou apontando para mim: “Agora eu entendo a frase “Brazil, where the nuts come from” (uma referência ao duplo sentido da palavra nuts – Brasil, de onde vêm os malucos). Era mercado negro, né, nunca mais fiz isso, morri de vergonha.

iG: Em 1958, você participou, ao lado de Zé Celso Martinez Correa, Renato Borghi e outros atores, da fundação, em São Paulo, do Teatro Oficina. Você permaneceu lá até 1968. Como eram os encontros da classe artística na hora de comer?
Etty Fraser: O Gigetto [restaurante na rua Avanhandava, em São Paulo] era o lugar, nosso QG. Existiam o Oficina, o TBC, o Maria Della Costa, o Arena e o Cacilda Becker. Éramos poucos atores, meu registro profissional é número 100, hoje passou dos 30 000, imagine. O Oficina era contra fazer televisão, éramos “resistentes” ao regime militar, o grupo era muito fechado, fizemos muitas refeições lá no teatro mesmo, dentro das possibilidades. Reuniões em nossas casas, só nos aniversários, não tinha essa coisa de jantares de hoje. Ao Ca’d’Oro [outro restaurante clássico paulistano, que já não existe mais] não íamos, era caro para a gente. No GiG Comidaetto, tudo podia acontecer. Lá conheci meu marido Chico Martins. Dramaturgos, atores, diretores e produtores planejavam novas montagens e viviam romances à base de muito macarrão.

Arquivo Pessoal
"À Moda da Casa": Etty recebia 5 000 cruzeiros para fazer o programa e tinha liberdade para continuar atuando no teatro
iG: Depois desse período no Oficina você passou a fazer televisão. Como foi a proposta para o programa À Moda da Casa?
Etty Fraser:
Em 1980, a Globo estava levando quase todo mundo para o Rio. O pessoal da agência da Cica [indústria alimentícia patrocinadora do programa] veio me sondar: “Etty, você cozinha?” “Cozinho”, eu disse. “Cozinha bem?”, me pressionaram. “O trivial, tudo o que mamãe me ensinou eu sei fazer, mas não sou uma culinarista”, disse. Então, eles deixaram claro: precisavam de alguém que transmitisse bem ao público as receitas da Cica, boladas por três cozinheiras da empresa. E continuaram: “Quanto vai ganhar no Rio?” “Acredito que 3 500 cruzeiros, para o tipo de personagem que faço.” E isso era um bom dinheiro... mais benefícios. Então eles contra ofertaram 5 000 cruzeiros para eu ficar em São Paulo fazendo o programa e com liberdade para fazer teatro. Aceitei.

iG: Nos Estados Unidos, o cenário gastronômico da televisão havia sido pautado por nomes como o de Julia Child, que entre outras qualidades conseguia aproximar as donas de casa de receitas antigamente associadas apenas à alta cozinha. No Brasil, Ofélia era, de certa forma, uma representante dela. Havia também o programa da Dona Zuleica. Como se inseriu neste contexto?
Etty Fraser: A Julia Child aproximou receitas francesas dos americanos, ela criava meios, era pioneira no formato, uma grande cozinheira. A Ofélia era maravilhosa, ela era uma verdadeira culinarista, criava e executava as receitas, lançou vários livros. Participou na Tupi do primeiro programa feminino da televisão, o Revista Feminina, da Maria Thereza Grégory. Dona Zuleica fazia doces e bolos, foi a primeira a decorar bolos de uma forma diferente, era muito criativa e talentosa. Depois elas faleceram, e eu continuei. Eu era uma grande transmissora, a atriz que tinha o tipo que se adequava às necessidades deles e comunicava bem. Eu sabia encantar, improvisar, me posicionar, divertir, contar piadas. Isso ajudou muito. Eu dizia que as receitas não eram minhas, mas ninguém acreditava.

iG: Você e Ofélia eram amigas...
Etty Fraser:
Éramos muito amigas, nos dávamos muito bem. Muito antes do meu programa existir eu ia muito ao programa dela como atriz. Tenho todos os livros dela, ela me convidava para todos os lançamentos.

iG: Quem era seu público?
Etty Fraser:
Um público variado, com crianças, inclusive. O programa passava às 13h30min. As senhoras queriam os pratos difíceis, os moços que moravam sozinhos queriam receitas fáceis. As recém-casadas queriam novidades. Vou te dizer uma coisa, eu rodei muito com o teatro no Brasil. Chegou uma hora em que as pessoas me conheciam mais pelo programa de culinária do que como atriz. Na saída da peça “Pequenos Burgueses”, em Pelotas, por exemplo, tinha gente da cidade me esperando para comentar receitas. Incrível.

De segunda a quinta, Etty transmitia receitas. Às sextas, fazia entrevistas com convidados como Nicette Bruno
Arquivo Pessoal
De segunda a quinta, Etty transmitia receitas. Às sextas, fazia entrevistas com convidados como Nicette Bruno
iG: O programa circulou por alguns canais de televisão, mudou de nome.
Etty Fraser:
O programa começou na Tupi, chamava-se “Boca do Forno”, bem no início. A Tupi faliu e passou para a Lemos Brito produzir, mudou o nome para “À Moda da Casa”, sempre com a Cica. Foi para a Bandeirantes e em seguida para a Record. Lá ficou até o fim, em 1988. De segunda a quinta-feira eu transmitia as receitas e às sextas fazia entrevistas com convidados. Foi uma condição para eu aceitar participar.

iG: E como era fazer o “À Moda Da Casa”?
Etty Fraser:
Muito organizado. Todas as quintas gravávamos os cinco programas da semana seguinte, eu começava às 12h e terminava às 20h. Recebia as receitas no dia anterior para estudá-las. Escolhia os vestidos na Med Grand, adorava caftas, aqueles vestidos soltos. Eu chegava para a gravação com cinco caftas e as bijuterias. O maquiador já estava me esperando e começávamos. Fazíamos frituras, assados, cozidos; precisávamos de água corrente, fogo, tudo funcionava. Depois a Revista Amiga publicava todas as receitas.

iG: E na hora da gravação?
Etty Fraser:
Eu seguia um teleprompter (facilitador para a leitura de texto anexado à câmera) com as receitas. As produtoras eram ótimas, todos os ingredientes separados nos potes, já nas medidas, tudo limpo, não faltava nada. Não fazíamos ensaio, era direto. Editado, ia ao ar com dois intervalos. Tínhamos um espelho sobre o fogão para o câmera man mostrar o passo a passo dentro da panela. E, claro, a produção sempre deixava um prato final pronto para ganharmos tempo. A Ruth, das flores, fazia um arranjo diferente por programa, coisas lindas. Havia sorteios de produtos da Cica, era tudo perfeito. Eu nunca me sentia cansada.

iG: O que faziam com toda a comida no final do dia?
Etty Fraser:
Isso é uma coisa que eu fazia e que nenhuma outra fez, eu fazia questão: quando acabavam as gravações, eu montava uma mesa com uma toalha e toda a equipe comia tudo o que eu tinha preparado no dia. Passavam o dia inteiro sentindo aqueles aromas maravilhosos, claro que iam comer! A equipe inteira adorava isso.

iG: Alguma lembrança de algum imprevisto?
Etty Fraser:
Uma vez, uma receita precisava de chocolate em barras. As produtoras tinham deixado tudo arrumado nos potes. De repente, ouve-se a voz bem alta do Luiz Gallon vinda do switcher (espécie de sala de controle): “pessoal, precisa comprar mais chocolate porque a Etty já comeu tudo o que estava na cumbuquinha”. Comi mesmo! Aí foram à padaria improvisar a barra. Mas era gente muito amiga, havia humor.

iG: Numa época em que não existia internet, você recebia muitas cartas?
Etty Fraser:
Eu recebia muitas cartas. As pessoas gostavam do programa, de mim, das receitas, escreviam isso. Eu detestava as minhas mãos. Achava um horror, pequenas demais e as unhas curtas, sabe? Lembro-me de uma carta em especial, tão bonitinha, que dizia assim: “A coisa que mais gosto de ver é a sua mãozinha, tão linda!” Aí eu agradeci no programa: “Meu amigo, o senhor não sabe o bem que me fez.”

iG: Alguma carta mais crítica?
Etty Fraser:
Há uma de que eu não me esqueço, começava assim: “Prezada Dona Etty Fraser, estou achando o seu programa muito do chato. Cozinho muito bem e quero aprender pratos mais sofisticados, mais difíceis. Espero que a senhora mude”. Eu li no ar, me desculpei com ela etc.

iG: E as receitas consagradas, se lembra de alguma para contar?
Etty Fraser:
Até hoje sou parada na rua por causa de duas receitas. São receitas que dão muito certo. Veja como são fáceis:

Salada de macarrão
Ingredientes
1 pacote de macarrão para sopa Padre Nosso (aquele furadinho)
2 pimentões verdes, 2 pimentões vermelhos, 2 talos de salsão branco, 2 maçãs verdes, todos bem picadinhos
100g de uva-passa
100g de nozes picadas
2 ½ colheres de maionese

Preparo
Cozinhe normalmente al dente e passe na água fria para esfriar.
Misture os ingredientes (menos a maionese) na travessa definitiva e tempere normalmente como se fosse uma salada: sal, limão ou vinagre, azeite e pimenta do reino. Adicione uma colher e meia de maionese e misture bem, para dar liga. Cubra com uma colher de sopa de maionese e, se quiser, enfeite com alface picada em tiras.

Meu filho diz que não existe Natal sem esta salada. A outra receita é muito simples:

Sorvete de café
Ingredientes
1 lata de leite condensado
2 medidas da mesma latinha de creme de leite para chantilly
3 colheres de café solúvel socado no pilão ou bem batidinho

Preparo
Misture bem todos os ingredientes em um pirex alto. Leve ao freezer por pelo menos 30 minutos. Está pronto.

Recebi tanta carta por causa dessas receitas, você nem imagina...

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