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Refrescante e amargo, é o drinque da moda tanto nos mais clássicos quanto nos mais descolados bares de Barcelona

É verão em Barcelona. Noites longas, calor, férias. A bebida da estação é o gim-tônica. Ao pedir um drinque assim nos bares locais, fica o aviso: a resposta certamente será seguida de outras perguntas: qual gim ? Qual tônica ? Quem acha que gim-tônica é uma bebida simples, uma mistura despretensiosa e quase adolescente de gelo, refrigerante e destilado, pode se espantar com tanta oferta. De bares de tapas a lugares especializados em coquetéis, há versões desse clássico aromatizadas com rosas, pepino, alcaçuz... É preciso ainda escolher entre dezenas de opções de gim premium e outras tantas de água tônica. “É uma moda que começou a aparecer há uns dois anos, mas que está no seu auge”, diz Juanjo, barman do bar Milano, no Eixample, que serve em média noventa gim-tônicas por dia.

O gim é um destilado obtido a partir de grãos (cevada, centeio etc.) ou outros ingredientes, como tubérculos e até mesmo a uva - este último é uma bebida típica da ilha de Menorca, na Espanha. A graduação alcóolica varia de 40 a 50% e a composição de base sempre mistura álcool, juniper e especiarias. Juniper, vale anotar, é sinônimo de zimbro. Trata-se de um cipreste, uma planta aromática com poderes medicinais (diurética, anti-séptica) e por isso comum em medicamentos naturais. Durante a apuração, a reportagem do iG Comida experimentou uma pinha de zimbro conhecida. É uma bolinha com diâmetro de alcaparra e carinha de pimenta verde ou de mirtillo. Basta morder para sentir sabor de gim.

O gim premium é composto de ingredientes nobres, especiais, e incorpora mais especiarias em sua fórmula. Aguns exemplos: há um gim inglês feito com água das geleiras da Islândia. Outro, francês, leva açafrão, um dos temperos mais caros do mundo. Alguns são também destilados mais vezes que outros. Uma garrafa de gim comum custa, em média, 10 dólares, enquanto que o gim premium pode custar 40 dólares.

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Do remédio ao drinque

O gim teria teria sido inventado na Holanda, como medicamento, no século XVII. Tornou-se uma das primeiras bebidas alcoólicas baratas do mundo, responsável pelo aumento do consumo de álcool em toda a Europa. Da Holanda, espalhou-se pela Inglaterra, para onde foi levado sobretudo por soldados e onde se tornou uma bebida muito apreciada. No século XVIII, era considerado a bebida nacional da Inglaterra (e culpada, inclusive, por problemas de alcoolismo, já que era forte e barata). Nessa mesma época, a Ilha de Menorca, no arquipélago espanhol das Baleares, esteve sob a ocupação inglesa, daí a popularidade do gim por lá. Em Menorca, o destilado característico da região é obtido a partir do álcool de uva.

A invenção da tônica (água carbonatada aromatizada com quinina, composto analgésico e antitérmico), por sua vez, data do fim do século XIX. Reza a lenda que a mistura dos dois é obra de oficiais britânicos, que lutavam na Índia, onde se tomava tônica com freqüência (para combater a malária) e gim (para celebrar vitórias). A combinação teria sido feita para melhorar o gosto de ambos e acabou caindo nas graças do mundo inteiro até virar a bebida da temporada.

A seguir, os principais gins e tônicas premium à venda na Espanha e um roteiro dos melhores bares para provar a bebida na capital catalã, do mais underground ao mais clássico.

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Gim

Brockmans: tem sabor de frutas vermelhas e é bom tanto no gim-tônica quanto puro.

Bulldog: tem aroma de alcaçuz e rende coquetéis fortes.

Citadelle: francês, tem sabor cítrico e fica perfeito em coquetéis feitos com limão verde (o limão brasileiro é mais apreciado pela coquetelaria que o siciliano, mais comum na Europa).

Hendricks: aromatizado com pepino e pétalas de rosa, este gim inglês tem um inconfundível sabor adocicado. Pepino e rosas de verdade costumam compor o gim-tônica feito com ele.

Martin Miller’s: destilado na Inglaterra com água proveniente de geleiras islandesas, considerada uma das mais puras do mundo.

Saffron: o gim feito na cidade francesa de Dijon tem entre seus ingredientes o açafrão, o que lhe garante uma inusitada cor (o açafrão é dourado, alaranjado, às vezes com tons bem próximos do vermelho) e um sabor peculiar.

The London No 1: leva gardênias na composição, o que deixa sua cor azulada

Água tônicas

Swchweppes: uma das favoritas dos barmans por seu alto teor gasoso, foi inventada na Inglaterra pela empresa de Jacob Schweppe em 1870 (Jacob, por sua vez, havia criado quase 100 anos antes o sistema para fazer bebidas com gás carbônico, ou seja, o refrigerante). Leva um toque de quinina, analgésico e antitérmico, e foi produzida, a princípio, para ajudar a combater a malária no exército indiano.

Fentimans: Amarga e cheia de gás, funciona em coquetéis que levam misturas de cítricos ou frutas.

Fever Tree: elaborada com quinina colhida nas “árvores da febre” (daí seu nome) de Ruanda, é a tônica da moda. Tem menos borbulhas que a Schweppes e, levemente cítrica, combina com gins suaves.

Nordic Mist: apesar do nome, é fabricada pela Coca-cola. Vendida em lata em vez de garrafa, tem sabor bastante amargo e por isso não é tão apreciada pelos iniciados. É considerada uma tônica de pior qualidade.

Q-Tonic: de sabor levíssimo (é quase uma água com gás), combina com gins fortes e pouco doces. Adoçada com edulcorante em vez de açúcar, tem 60% menos de calorias que as outras tônicas.

Onde provar bons gim-tônica em Barcelona

Borneo: Rec, 49, Born, tel. (34) 932-682-389, www.barborneo.com

Como o próprio nome indica, fica no meio do Born, bairro turístico que é o favorito boemia cool de Barcelona. Num ambiente com cara de boteco-arrumado paulista (mesas de madeira, grandes paredes de vidro voltadas para o exterior...), tem 17 tipos de gim e três de tônica (Schweppes, Fever Tree e Q-tonic) e os drinques custam em média 10 euros. É um dos poucos bares que serve meio gim-tônica, o que é ótimo para provar vários antes de escolher o favorito.

Dry Martini: Aribau, 162, Eixample, tel. (34) 932-175-072, www.drymartinibcn.com

Um dos bares de coquetéis mais clássicos e chiques da cidade (tem sofás de couro vermelho antigões, uma barra de bar dourada e freqüentadores sempre elegantes), serve, além do coquetel que lhe batiza, excelentes gim-tônicas. Há dos clássicos a misturas com canela, groselha e até café. Os coquetéis são de Javier de las Muelas, mestre coqueteleiro top.

MauMau: Fontodrona, 35, Poble Sec, tel. (34) 934-418-015, www.maumaunderground.com

Centro cultural/bar underground no meio do Poble Sec (bairro pouco turístico, mas onde inauguram cada vez mais bares interessantes), o MauMau acaba de inaugurar uma carta de gins premium com um evento que batizou de “em busca do gim-tônica perfeito”. Faz sucesso o que leva alcaçuz (estranho, mas curioso).

Milano Cocktail Bar: Ronda de la Universitat, 35, Eixample, tel. (34) 934-813-327, www.camparimilano.com

Não se assuste pelo aspecto da entrada do bar, na movimentada avenida da Universidade. Parece uma lanchonete pega-turista, dessas que se recomenda passar longe. Nos fundos, uma escadinha leva ao subsolo, onde fica o Milano propriamente dito, bar clássico, sempre escuro, sempre cheio com clima Great Gatsby (romance do autor americano Scott Fitzgerald). Entre um gim-tônica e outro, feitos pelo mestre Juanjo, assista filmes antigos num telão.

Negroni: Joaquín Costa, 46, Raval

Fica no meio do Raval, bairro que é o mais confuso de Barcelona (underground, point de notívagos, de traficantes...), mas também um dos mais interessantes e vivos. Abre-se uma portinha negra numa estreita rua e entra-se em outro universo de móveis de design e baixa iluminação. Mas o que poderia apenas ser um lugar descolado e vazio aproveitando-se do charme do entorno decadente mostra-se um dos melhores bares de coquetéis de Barcelona, com duas dezenas de marca de gins e um proprietário, Javier Cejas, que é também autor de livros de coquetéis.

Pesca Salada: Cera, 32, Raval

Sem dúvida o mais alternativo dos bares deste tour, funciona numa antiga peixaria numa das saídas do Raval, quase no mercado Sant Antoni, e, além de chop, serve quase que só gim-tônicas. Os drinques são preparados em copos quase tão grandes quando aquários. Imperdível o que leva pepino e pétalas de rosa comestíveis.

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