Gastronomia solidária

Projetos sociais geram oportunidades para quem quer trabalhar com alimentos e em cozinhas profissionais

Marcela Besson, iG São Paulo |

Getty Images
O chef Jamie Oliver (ao centro) com os aprendizes do Fifteen em Melbourne, na Austrália, em 2006: a primeira franquia do restaurante-escola fora da Europa
Tal qual água e óleo, gastronomia e inclusão social pareciam, há até pouco tempo, dois ingredientes imiscíveis. Mas alguns chefs de cozinha estão subvertendo a receita. Certamente, o mais conhecido deles é o inglês Jamie Oliver. Desde 2002, em seu restaurante-escola Fifteen, em Londres, Oliver usa sua fama, carisma e habilidade culinária para ensinar jovens carentes a serem bons cozinheiros. É uma tentativa de afastá-los de algum possível desvio de rota - criminalidade e violência, por exemplo.

A empreitada deu bons resultados logo no começo e, hoje, outras três unidades do Fifteen foram abertas na Inglaterra, na Holanda e na Austrália. Durante um ano, os alunos trabalham nesses restaurantes, são treinados por bons profissionais e, acabada a temporada de aprendizado, são devidamente orientados a seguir em frente na carreira, com bolsas de estudo, viagens e oportunidades de trabalho.

Sem os mesmos instrumentos midiáticos do chef-celebridade Jamie Oliver, no Brasil também tem gente seriamente interessada em promover ações 'socialmente gastronômicas'. São eles: David Hertz, do projeto Gastromotiva, em São Paulo, e Teresa Corção, do Instituto Maniva, no Rio de Janeiro.

Renato Stokler / Divulgação
David Herz, do projeto Gastromotiva: educação pela prática
Ele investe em mão de obra
Quando tinha vinte e poucos anos, o curitibano David Hertz viajou o mundo. Do Vietnã aos Estados Unidos, conseguiu se manter trabalhando nas cozinhas dos restaurantes locais. Em 1998, com a mochila repleta de experiências gastronômicas, decidiu voltar ao Brasil e se profissionalizar na área. Estudou, cozinhou em casas de renome e deu aulas de culinária. Mas foi nas comunidades carentes da periferia de São Paulo que David encontrou a chance de fazer da gastronomia um “negócio social”, como ele mesmo gosta de definir.

Seu projeto Gastromotiva, criado em 2008, atua em duas frentes para atrair jovens de baixa renda: oferece um curso profissionalizante de auxiliar de cozinha, com aulas teóricas e práticas, e um serviço de bufê, que gera renda para o projeto e serve também de estágio para os alunos. “A proposta é oferecer educação pela prática”, conta o chef.

Garotos e garotas passam por uma ‘peneira’ para ingressar no curso, que é gratuito e tem o apoio da Universidade Anhembi-Morumbi – são trinta vagas por semestre. O chef contabiliza 66 pessoas beneficiadas pelo programa até agora. Uma delas é Uridéia de Andrade, ex-aprendiz e hoje coordenadora do bufê da Gastromotiva, que atende a eventos sociais e corporativos. “A missão não é apenas formar os jovens, mas também ajudá-los na hora de procurar o primeiro emprego ou de abrir o próprio negócio”, diz Hertz.

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Chef Teresa Corção, do Instituto Maniva: oficinas beneficentes já atenderam a mais de 3000 crianças
Ela se preocupa com o produtor
A carioca Teresa Corção não fez curso de gastronomia. Sua sabedoria culinária foi aprendida à beira do fogão, com ingredientes da cozinha brasileira e boas pitadas de criatividade. Além de comandar as panelas do restaurante O Navegador, no centro do Rio, Teresa abraçou outra causa gastronômica: o Instituto Maniva, fundado por ela em 2007.

Tudo começou quando a chef, encantada com as pesquisas que havia feito sobre a mandioca, passou a visitar escolas públicas da periferia da cidade para ensinar as crianças a fazer tapioca. “É um produto tão nosso, tão elementar. Fiquei assustada ao saber que a maioria dos alunos desconhecia o ingrediente”, diz a chef. A experiência impulsionou a criação do Instituto Maniva.

Além das oficinas beneficentes, que já atenderam a mais de 3000 crianças, o projeto também ajuda a promover o trabalho de pequenos agricultores familiares. “A intenção é incentivá-los a valorizar sua cultura e inserir os seus produtos de forma justa no mercado da gastronomia”, defende Teresa. É o caso do Seu Bené, produtor de farinha d’água que criou uma pequena cooperativa em Bragança, no interior do Pará . “Comida é afeto, cultura e memória”, pontua Teresa. Argumentos legítimos para convencer mais gente a arregaçar as mangas.

Gastromotiva
capacitacao@gastromotiva.org
(11) 2924-0300

Instituto Maniva
contato@institutomaniva.org
(21) 2262-6037 

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