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Americanos investem em equipamentos e montam cervejarias na sala de casa

A cervejaria de Tim Artz é cercada por paredes de vidro em três lados, e tem vista para uma ribanceira de macieiras e um jardim cheio de feijões, abóboras e 35 variedades de pimenta. Numa manhã de abril, as portas da cervejaria estavam abertas, mas o local estava quente; o bico de gás sob o tanque de fermentação de 114 litros ardia em potência quase total.

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Artz já estava uns bons 90 minutos em seu dia de cervejeiro; os grãos estavam moídos, o lúpulo estava pronto e esperando numa mesa ao lado. Era o momento certo para sua esposa vir da casa e perguntar se ele e seus convidados gostariam de uma xícara de café.

Artz, de 48 anos, é apenas um cervejeiro caseiro, não um profissional; seu emprego principal é diretor de tecnologia da informação numa empresa de saúde. Porém, com a elaborada montagem que ele construiu e instalou em sua sala na Flórida (há um grande barril para armazenar a trituração e um tanque de fermentação de US$ 1.800, além da caldeira de 114 litros), ele poderia facilmente ser confundido com algo mais que um amador.

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Ben Artz, de oito anos, assiste a produção caseira de cerveja do pai pela janela da sala
NYT
Ben Artz, de oito anos, assiste a produção caseira de cerveja do pai pela janela da sala
A fabricação caseira de cerveja, considerada ilegal pela Lei Seca e legalizada apenas em 1979, está experimentando um ressurgimento. A American Homebrewers Association, localizada em Boulder, no Colorado, tinha apenas 11.724 membros em 2006, número que hoje mais do que dobrou, chegando a 26 mil pessoas. Esse aumento de interesse, por sua vez, promoveu um aumento de demanda por equipamentos de fermentação, segundo Gary Glass, diretor da associação.


“As lojas de suprimentos para fermentação caseira relataram um crescimento de 16 por cento na receita bruta, conforme números de 2009”, afirmou Glass, referindo-se à mudança em relação ao ano anterior. Os números para 2010 ainda não estão disponíveis, mas ele prevê mais um crescimento de dois dígitos.

Esse aumento foi impulsionado pelo surgimento dos clubes sociais, livros e concursos voltados aos cervejeiros amadores, além do sucesso de microcervejarias ao longo das duas últimas décadas – que inspirou muitos fabricantes de cerveja caseira. Movimentos locais e de "faça você mesmo" também tiveram seu papel.

“Há uma tendência a se fazer as coisas mais localmente”, explicou Glass. “E não existe nada mais local do que fazer em sua própria casa”.

Nem mesmo a recessão desacelerou as coisas, disse Glass. “Parte da teoria”, continuou, “é que as pessoas têm mais tempo para passatempos quando estão desempregadas ou subempregadas”.

De certa forma, o renascimento remete às raízes dos Estados Unidos. Dizem que os peregrinos chegaram a Plymouth Rock, em vez de continuarem até a Virgínia, pois haviam ficado sem cerveja e queriam um suprimento fresco.


Christopher Bowen em sua cervejaria particular
NYT
Christopher Bowen em sua cervejaria particular
Muitos fundadores do país produziam cerveja em suas fazendas (a receita de George Washington para uma cerveja feita com melaços, recentemente recriada por uma cervejaria do Brooklyn, era comercialmente produzida pela Shmaltz Brewing Co.). Até mesmo os Obamas aderiram; eles serviram uma cerveja fermentada na Casa Branca, aromatizada com mel das colmeias locais, em sua festa do Super Bowl deste ano.

Para muitas pessoas, a fabricação caseira de cerveja traz uma imagem de equipamentos desgastados, entulhados num canto da garagem e organizados apenas ocasionalmente, alimentados por modestos tanques de propano e gerando somente alguns litros (cervejarias profissionais medem a produção por barril – aproximadamente 117 litros em cada).

Mas com o crescimento dos cervejeiros amadores, mais deles são como a família Artz: pessoas com equipamentos de ponta que produzem muita cerveja e possuem um espaço dedicado à prática em suas casas.

“Quando olhamos a casa e entramos nesta sala, sabíamos que a cervejaria seria colocada aqui”, disse Dot Artz, que ocasionalmente participa da produção com seu marido – mas que naquele dia de abril estava fazendo cristais na cozinha, com seu filho Ben, de oito anos. Uma família realmente "faça você mesmo" eles também colhem cogumelos, fazem seu próprio sabão, criam quatro colmeias e defumam carne num grande defumador feito num tambor de óleo limpo e adaptado.

A família Artz também fez investimentos substanciosos em seu passatempo.

Quando questionado quanto já gastou na produção de cerveja ao longo dos anos, Tim Artz rolou os olhos e sorriu maliciosamente. “Bastante”, respondeu. “Esse definitivamente não é um hobby barato”.

Alguns produtores caseiros que investem alto trazem ambições de algum dia abrir uma cervejaria profissional (como amadores, eles não podem vender suas produções legalmente). Porém, outros esbanjadores não possuem grandes planos comerciais. Eles comparam a fabricação de cerveja com atividades como o golfe: um passatempo que mistura amor, exploração, tentativa e erro, frustração e, finalmente, orgulho – quando a água, o malte, o lúpulo e a levedura se combinam da forma exata para gerar uma cerveja perfeita.

Para os dedicados entusiastas que estão dispostos a gastar dinheiro, disse Glass, fabricantes de equipamentos de cerveja, como a Sabco, em Toledo, Ohio, e a More Beer, em Concord, Califórnia, começaram a fabricar produtos comerciais de alta qualidade para uso caseiro.

“Isso ainda é a exceção, e não a regra”, declarou Glass, que afirma enfaticamente não ser um dos cervejeiros da alta tecnologia. Ele fabrica cerca de seis vezes por ano, e o faz num sistema 'Frankenstein’ – termo carinhoso usado por cervejeiros amadores para descrever uma confusão de equipamentos que não é bonita, mas faz o serviço.

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Mesmo assim, Bob Sulier, presidente da Sabco, acredita que o número de cervejeiros bem equipados esteja aumentando. No passado, o sistema Brew Magic da empresa – seu carro-chefe de US$ 6 mil – era vendido principalmente a cervejeiros profissionais, disse ele. Agora, muitas unidades estão sendo compradas por produtores caseiros ou grupos de produção amadora. Em 2010, segundo ele, a empresa vendeu uma média de um sistema Brew Magic por dia.

“Nós fornecemos para a ponta mais avançada dos produtores caseiros”, afirmou Sulier. “Para muitos, este é o próximo passo lógico. Eles estão dispostos a investir alguns dólares.”

A casa de Christopher Bowen parece um pub inglês
NYT
A casa de Christopher Bowen parece um pub inglês
Para muitos, o hobby começou na faculdade. Alguns queriam beber bem gastando pouco, e outros se inspiraram em produtos para iniciantes – como os kits Mr. Beer, barris de plástico custando cerca de US$ 40 que possuem ingredientes pré-medidos e instruções simples, produzindo cerca de 8 litros de cerveja.

Mas como muitos passatempos, a produção caseira de cerveja pode viciar – e ficar mais cara.

Kal Wallner, engenheiro elétrico de 41 anos de Ottawa, Ontário, disse ter gastado cerca de US$ 5 mil numa cervejaria totalmente elétrica (a maioria funciona a gás), que ele instalou numa sala do porão abaixo dos degraus da varanda. Seu objetivo era ambicioso: um sistema no qual, “assim que se entrasse, a pessoa pensaria imediatamente numa cervejaria de verdade”.

Atualmente, a cervejaria de Wellner está empacotada, esperando por uma mudança a nova casa da família. Quando se mudar, em julho, ele terá mais espaço para a cervejaria e pretende instalar drenos no chão, revestir toda a sala com azulejos e acrescentar novos equipamentos.

Algumas vezes, nem mesmo um bar no porão é o bastante para uma cervejaria caseira. Christopher Bowen construiu um pub para acompanhar sua cervejaria de 38 litros, ambos num galpão de 74 metros quadrados numa propriedade em Bethlem, na Pensilvânia, que também abriga o chalé que ele compartilha com a irmã e um amigo. Bowen, um planejador financeiro de 44 anos e pai de três filhos, chama o galpão de HammerSmith Brewery and Alehouse. O interior lembra um pub inglês, com 24 canecas de 591 mililitros reservadas aos visitantes regulares.

Bowen, que prefere fazer ales e cervejas há muito esquecidas, se aventurou na fabricação caseira há sete anos. Ele entrou numa loja local de suprimentos para comprar um presente de aniversário a um amigo e saiu com US$ 300 em equipamentos de cervejarias para si.

Logo estava participando de concursos, e em 2007 ele venceu uma medalha de ouro no Great American Beer Festival, que foi criado há 30 anos é o maior evento de cerveja do país, organizado anualmente em Denver. Na maioria das manhãs de sábado, pode ser encontrado trabalhando no galpão: ele também interpreta um cervejeiro em reconstituições históricas locais e é bastante popular no circuito de palestras sobre a fabricação caseira de cerveja.

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O concurso vencido por Bowen é apenas um entre centenas de competições mundiais, durante o ano todo. Até mesmo cervejarias profissionais dão às cervejas caseiras uma chance ao estrelato. No concurso anual de Longshot, organizado pela Boston Beer Co., fabricantes das cervejas Samuel Adams e produtores caseiros enviam receitas: os dois ganhadores têm suas cervejas produzidas, engarrafadas (com seus nomes no rótulo) e distribuídas nacionalmente.

O pub caseiro de Bowen tem televisores, poltronas confortáveis, um alvo de dardos e uma adega repleta de barris de uísque e vinho usados para envelhecer a cerveja. Tudo que um amante das cervejas adora – ou quase.

“Não temos um banheiro”, disse Bowen. “Mas estamos numa região bastante isolada. Ou, se necessário, o chalé fica a 20 passos de distância”.

*John Holl, de Oakton, Virgínia


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