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Na contramão do fast food, o movimento que celebra o prazer de comer bem luta por uma causa nobre: descobre e protege alimentos e tradições culinárias ameaçados de extinção, em todo o mundo

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O movimento Slow Food surgiu na Itália em 1986, por iniciativa do jornalista Carlo Petrini, como resistência à invasão do fast food ¿ na época, uma famosa cadeia mundial de alimentação instalou-se na tradicional Piazza di Spagna, no coração de Roma. Três anos depois, tornou-se uma associação internacional sem fins lucrativos, sediada em Bra, na região do Piemonte, e hoje reúne mais de 80 mil associados em cerca de 150 países.

Tendo como símbolo um caracol , molusco que remete à lentidão, muita gente pensa que o movimento se resume ao ato de comer sem pressa (slow, em inglês, significa devagar). Quando na verdade, buscar tempo para saborear as refeições é apenas um dos pilares que sustentam a filosofia do movimento, que defende a busca do prazer em comer.

O almoço de domingo com a família reunida no quintal, a geleia que nossas avós faziam com as frutas do pomar da vizinha, o caderno de receitas transmitidas por gerações, são tradições cada vez mais esquecidas em função da fast life ¿ a correria da vida moderna, focada no trabalho e no dinheiro. Observe como tudo está industrializado, pasteurizado, com o mesmo sabor. Estamos perdendo o vínculo com a terra, com as nossas raízes, diz Cenia Salles, líder do Convivium Slow Food de São Paulo .

À propósito, convivium quer dizer festim, ou banquete, em latim ¿ e é como são chamados os grupos locais do Slow Food, sendo que no Brasil, o primeiro deles foi criado no Rio de Janeiro, em 2000. Trata-se de um movimento social, cultural e eco gastronômico, pois se empenha em preservar tradições e receitas regionais, valorizar os pequenos produtores que têm produtos de qualidade, resgatar o convívio social em torno da mesa, divulgar alimentos pouco conhecidos e ainda proteger a biodiversidade, com base no uso sustentável do meio ambiente para produzir alimentos, resume Cenia.

Ação 

Para captar recursos e colocar em prática alguns projetos, criou-se uma fundação ligada ao Slow Food, sediada em Florença, na Itália. Um dos trabalhos mais interessantes é a Arca do Gosto, um catálogo mundial de produtos quase esquecidos, ameaçados de extinção. Dos cerca de 750 alimentos catalogados, onze são brasileiros, como o pirarucu e o palmito-juçara, entre outros menos famosos, como o feijão canapu (cultivado no Piauí) e a marmelada de Santa Luzia (doce típico de Luziania, em Goiás). A maioria é produzida em escala artesanal, por comunidades simples e sem incentivo; em outros casos, são retirados da natureza de forma não-sustentável, por isso estão em risco de desaparecer, explica.

Já o projeto Fortalezas atua dentro das comunidades onde as tradições gastronômicas estão ameaçadas, ensinando a população a preservar e valorizar a cultura regional. O camu-camu, fruto da Amazônia que poucos conhecem, é exportado para o Japão, usado para fazer sucos e refrigerantes; nossa geleia de umbu é saboreada na Europa, mas aqui é pouco consumida, argumenta Cenia.

Como se percebe, o movimento defende causas nobres, que vão além de criticar aqueles que comem em pé, olhando para o relógio. Mas ainda há muito pela frente: parcerias com o governo, projetos nas escolas e maior envolvimento dos chefs de cozinha estão entre os planos. Quem se associa ao movimento, participa de palestras, jantares, degustações, visita a produtores e encontros promovidos pelo convivium local. E quem simpatiza com a causa, pode adotar uma postura a favor do Slow Food, com algumas mudanças de hábito.

Como? É preciso resgatar o prazer na alimentação, apreciar mais os produtos da terra e menos os industrializados, celebrar os encontros em torno da mesa, comer mais em casa e, principalmente, consumir alimentos de qualidade, certificando-se de como foram produzidos. Simplesmente porque a escolha do que comemos afeta o mundo, resume Cenia. Mas como se trata de uma mudança de hábitos, pode levar algum tempo. Mas vá com calma, devagar. Afinal, pressa não combina com a filosofia slow do movimento.


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