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Produtores movimentam-se para fortalecer o destilado brasileiro fora do país

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Marina Fuentes, iG São Paulo
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Em 1952, o folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) publicou aquele que foi, possivelmente, o primeiro documento histórico sobre as origens e as características do destilado nacional em O Prelúdio da Cachaça . No texto, o autor desenha a relação da bebida com o brasileiro e levanta a questão sobre a nomenclatura da bebida, que, sem padrão determinado, era então chamada de “cachaça, cana ou aguardente”, de maneira generalista.

Mais de meio século depois, a bebida ainda não tem uma lei própria e nem é um produto com denominação de origem reconhecido fora do território nacional. Carlos Lima, diretor executivo do Instituto Brasileiro da Cachaça, explica que o setor trabalha em duas frentes para a bebida virar um produto protegido, como acontece com a champanhe, o jerez e a tequila. “Estamos analisando a regulamentação de uso para apresentar um pleito para a comunidade europeia. Já nos EUA, onde nosso produto é classificado como rum, as negociações estão bem avançadas para o produto ter sua própria identidade”, conta.

Por causa da classificação americana, desde 2000 os exportadores brasileiros são obrigados a colocar a inscrição “Brazilian Rum” no rótulo das cachaças, o que não ajuda em nada a estabelecer a bebida, que tem indicação geográfica reconhecida dentro do Brasil desde 2001.

Lima alerta para a importância do nome ser exclusividade do produto brasileiro mundo afora. “Há outros países produtores de aguardente de cana e que acabam fazendo uso da nomenclatura cachaça”, explica ele. A medida vem em boa hora em termos econômicos: um relatório divulgado em 2009 pelo International Wine and Spirits Records (IWSR) estima que até 2013 o segmento de rum e cana, ao qual pertence a cachaça, será o único que deve ter crescimento expressivo entre os destilados.

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Marina Fuentes, iG São Paulo
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Leis específicas

Paralelamente, um projeto de lei específica para regulamentar a cachaça – que hoje é regida por um decreto geral das bebidas – está em curso. O deputado Valdir Colatto (PMDB) propõe uma série de normas para estabelecer padronização, classificação, controle e certificação para a cachaça.

A proposta já foi analisada em várias instâncias, debatida com entidades representantes do setor e já passou por algumas mudanças. A principal queda de braço se dá entre os grandes produtores, que querem que toda aguardente de cana produzida pelas normas do Ministério da Agricultura seja denominada cachaça. De outro lado, os produtores artesanaise defendem uma classificação distinta para as cachaças de alambique. ”Acho que é um direito do consumidor saber que tipo de bebida está comprando”, defende o deputado Valdir Colatto, que apóia a indicação de “cachaça de alambique” nos rótulos dos produtos artesanais.


“Catequizando” o consumidor

Leis específicas e um reconhecimento internacional sem dúvida ajudariam a melhora da imagem da cachaça também dentro do Brasil. Mas enquanto as iniciativas não saem do papel, empresas trabalham para “catequizar” o consumidor para o mercado premium.

A cachaça Leblon, produzida em Pato de Minas, criou o movimento  “ Salve a Caipirinha ”, em favor do coquetel feito de cachaça de alambique, respeitando a receita original. O manifesto é endossado por um abaixo-assinado com assinaturas de gente como o chef Alex Atala, um declarado fã do destilado. A empresa pretende lançar um site sobre o movimento em meados de novembro e estender as ações de “defesa” em bares e restaurantes.

Já a marca Nega Fulô, da gigante produtora de bebidas Diageo, travou parcerias com bares e restaurantes, como os paulistanos Brasil a Gosto, Mocotó e Pirajá, para promover o Dia da Cachaça em 13 de setembro – outra oficialização que tem projeto de lei, do mesmo deputado, sendo analisado. Na comemoração, drinques especiais com cachaça e versões diferentes da caipirinha, como a feita com rapadura e limão-siciliano, foram oferecidas aos clientes.

Até a popular Pirassununga tem divulgado sua cachaça premium Cambraia, feita a partir de um blend de cachaças de alambique, levando o afamado barman Derivan para preparar caipirinhas com o produto em bares de São Paulo como Veloso e Desembargador. No restaurante Dui, da chef Bel Coelho, também foi desenvolvido um menu sob medida para ser servido com drinques com a bebida.

Ainda que muito fã da cachaça artesanal torça o nariz para as marcas feitas em larga escala ou para os produtos com características sensoriais mais amenas, que costumam encabeçar grandes campanhas de divulgação da bebida, o consultor de bebidas Márcio Silva acredita que todo o setor acaba se beneficiando. “Ainda existe uma discriminação da cachaça, mas acredito que seja pela falta de conhecimento dos excelentes produtos que existem. Mas muitos produtores estão trocando informações e isso já é sentido pelo consumidor final”, afirma.

A disputa pelo consumidor elitizado ganha tom acirrado em vista de um mercado promissor, também dentro do Brasil: em uma pesquisa da própria Diageo foi verificado que somente 7% da cachaça produzida atualmente pertence ao segmento premium, mas a estimativa é que o consumo desse tipo de bebida dobre no país em cinco anos.

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