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Para receber estrelas no Brasil, um hotel tem que ter cozinha internacional. A regra desagradou chefs e gerou abaixo-assinado

Tapioca e frutas tropicais são itens do café da manhã da pousada Aldeia Beijupirá, em Alagoas. Que tal trocá-los por crepes com Grand Marnier e marron glacê?
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Tapioca e frutas tropicais são itens do café da manhã da pousada Aldeia Beijupirá, em Alagoas. Que tal trocá-los por crepes com Grand Marnier e marron glacê?
Com a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil a caminho, o Ministério do Turismo resolveu trazer de volta a classificação de estrelas para os hotéis do País, revogada em 2009. Para isso, baixou a portaria de número 100, que determina o que o estabelecimento precisa ter para conseguir as almejadas quatro e cinco estrelas -- símbolos máximos de qualidade. E ali está escrito em letras miúdas: além de cardápios e garçons bilíngues, um hotel só estará entre os melhores se tiver um restaurante de cozinha internacional. Servir comida brasileira aparece no documento, sim, mas como item opcional.

A exigência chamou a atenção de Mônica Rangel, do premiado restaurante de culinária mineira Gosto com Gosto , em Visconde de Mauá, divisa entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. “Quando viajo, quero experimentar a culinária local”, diz a chef. O hábito, compartilhado por todos os seus colegas, não é só coisa de loucos por comida. “Provar a gastronomia de um lugar é conhecer sua cultura”, afirma.

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Se a história não mudar de rumo, mesmo os hotéis situados nos centros históricos vão ter que priorizar a culinária internacional, e o turista que acordar em Ouro Preto poderá comer croissants ao invés de pães de queijo no café da manhã. “Estive recentemente em Recife e encontrei até torta de limão no hotel”, diz Mônica. “Agora, bolos de rolo e Souza Leão, nada.” Vale lembrar que ambas as receitas, típicas de Pernambuco, são patrimônios imateriais do Brasil.

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Para o Ministério do Turismo, feijoada é prato sem apelo internacional
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Para o Ministério do Turismo, feijoada é prato sem apelo internacional
Ricardo Moesch, diretor de políticas públicas do Ministério do Turismo explica o que o governo entende por cozinha internacional: “são receitas e ingredientes que os hóspedes reconhecem, aonde quer que estejam. Pratos de fácil identificação, que todos estão acostumados a comer”. Segundo ele, estabelecimentos gabaritados devem seguir um padrão de referência internacional, para garantir conforto ao cliente. No setor de alimentos e bebidas, o modelo a ser seguido é o francês. “A cozinha francesa deu a origem à gastronomia mundial”, justifica Moesch. “Um steak au poivre, por exemplo, é prato reconhecido em todo lugar”, diz. “E não há exemplos assim na culinária nacional.”

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Num momento em que a qualidade da gastronomia brasileira é assunto mundial e chefs de todo o planeta abraçam a valorização do produto local, exigir que hotéis de luxo sirvam comida internacional parece mesmo um disparate. Mas, sob a liderança de Mônica, que conta com fortes aliados da área como a colega de profissão Roberta Sudbrack , os cozinheiros já começaram a bater panela.

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Depois de chamar a atenção para o assunto nas redes sociais, a chef está capitaneando o abaixo-assinado que pretende levar ao Ministério do Turismo. "Eu espero que eles ponderem a decisão e voltem atrás", diz Mônica. Quem quiser fazer parte do coro que defende a culinária e a cultura do País, pode acessar o documento clicando aqui . Agora, é torcer que o bom senso fale mais alto do que padrões engessados de comportamento. E que vença a cozinha brasileira.

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