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Ao comprar nesse comércio que funciona na base da confiança, a impressão que se tem é de que o mundo ficou melhor

No interior da Suíça existem comércios que são uma espécie de canteiros self-service. São bancas, quitandas e lojinhas de conveniência em que o cliente chega, escolhe, embala o produto, paga e vai embora sem interagir com nenhum vendedor. Compra as flores, o suco, o leite e/ou a fruta e deixa o pagamento ali. Funciona, assim, na base da confiança - confiança no pagamento e na qualidade do que se vai levar para casa. A impressão que se tem ao utilizar serviços como esses é de que o mundo ficou um pouco melhor.

Trata-se, portanto, de uma espécie de auto-serviço, pegue-e-pague, ou, do inglês, do it yourself. A plaquinha em alemão diz Selbst schneiden , que quer dizer corte você mesmo,  no caso de o comércio ser um canteiro de flores, por exemplo. Para esta reportagem vamos adotar o Sirva-se Você Mesmo , uma vez que não existe algo parecido no Brasil. Tomo a liberdade de a partir deste ponto me dirigir ao leitor em primeira pessoa, para contar os tipos de auto-serviço que encontrei em passagens pela Suíça.

Uma questão de confiança

Verão de 2005. Estávamos em uma estradinha vicinal no cantão de Berna, entre vaquinhas e macieiras e precisávamos presentear alguém. Numa parada para um café, fomos informados sobre o Sirva-se Você Mesmo . Quando avistamos a placa colorida, quase improvisada, estacionamos sem grande dificuldade em local próprio para veículos. O lugar tinha flores plantadas em canteiros lindos, muito bem cuidados, e podiam ser colhidas na hora. Era uma dica de presente, uma ótima ideia. Sobre uma mesa de madeira, estavam dispostos tesoura, papéis e fitas. Aquele era um terreno entre edifícios em uma cidade do interior.

Três cantões na Suíça - Aargau, Berna e Solothurn - são beneficiados pelo sistema, além de algumas localidades ao centro do país. Funciona assim: o dono da terra inscreve-se junto à sua regional e vende flores plantadas ao ar livre durante a primavera e o verão. Só que sem vendedor. Sem qualquer funcionário. Ninguém. Cada cliente chega, pega o que precisa, deixa o dinheiro em uma caixinha e vai embora. É difícil passar pela experiência sem refletir: a organização dá à comunidade o privilégio de se servir de flores e de tantos outros produtos (há outros modelos de Sirva-se Você Mesmo ), pagando o preço justo. E tudo funciona perfeitamente.

Estou de volta à Suíça, em 2010, no início da primavera no hemisfério norte, os canteiros do tipo Sirva-se Você Mesmo no cantão de Berna são um sucesso. Há informações consolidadas na internet, como mostra este link , onde os comerciantes avisam quais produtos estão à venda naquela estação. Cada época do ano eles, os comerciantes, oferecem algum produto diferente: árvores no Natal, lenha cortada, aspargos etc. Ganham destaque produtos especiais, como leite, ovos, sucos, frutas, licores, carne.

O turista desavisado não percebe a oferta quando passa pelas vias principais. As informações são trocadas entre os moradores, nas pequenas ruas, entre os vizinhos, uma prática que parece existir há séculos. Em resumo, o sistema oferece produtos de qualidade, enche os moradores de orgulho e fortalece a região. Funciona à base da confiança e tem dado certo. 

A água corrente mantém o suco fresquinho

Nesta segunda visita, a primeira parada na reportagem foi na região de Ittigen, no cantão de Berna. Como a estação das flores estava no começo, ainda fazia frio e o canteiro que procuramos oferecia à comunidade pouca variedade de flores, a maioria tulipas. E justamente quando chegamos as belas flores haviam sido usadas na noite anterior para o casamento de algum morador. Foi uma pena, vimos pouco, mas o lugar era muito bonito, isolado, perto de um bosque. Como já se esperava, uma singela placa informava sobre a atividade do lugar e vendia flores sem vendedor.

As estradas são estreitas e, em cada cruzamento, indicações não tão óbvias vão nos conduzindo. Perder-se, no entanto, é parte do passeio. Os vilarejos revelam os bastidores de um pais belíssimo. A região de Bolligen encontramos um Sirva-se Você Mesmo parecido com uma quitanda (no site, eles chamam de “casinha”, em dialeto suíço). Ali são vendidas frutas recém-colhidas pelo produtor, expostas em caixas.

A última parada da reportagem: até sapatinhos de borracha para percorrer canteiros sem sujar os pés
Rita Grimm
A última parada da reportagem: até sapatinhos de borracha para percorrer canteiros sem sujar os pés
De passagem pela quitanda, o senhor Markus Heini, morador da rua de cima, comentou: "Aqui adquirimos produtos certificados, como no caso das frutas, sem ir muito longe." Facilidade para estacionar e uma placa acolhedora com os dizeres Frisch Vom Hof ( frescos, vindos da chácara ) davam as boas vindas. Além de maçã e pera, a casinha vendia frutas secas, leite, suco e lenha. Tudo organizado. O suco, artesanalmente engarrafado, ficava submerso em água corrente para manter-se gelado. O leite, disposto em lugar separado, tinha sua própria comunicação visual. O proprietário preocupou-se em fornecer absolutamente tudo: na parede, a lista de preços; sobre um balcão, balança, papel e lápis, calculadora, caixinha com o formato de um cofrinho para o pagamento, outra caixinha com um troquinho para o caso de o cliente precisar e, ainda mais interessante, máquina para pagamento com cartão de débito.

Ainda em Bolligen a reportagem visitou mais um canteiro de flores, desta vez uma estufa. Lá encontramos a senhora Hanna Bergman fazendo compras. Ela comenta com orgulho os pontos positivos da iniciativa. "Todos ganham. Os produtos são de qualidade e economizamos tempo, dinheiro e fortalecemos a região."

Na última parada, na região de Allmedingen, dava para perceber canteiros que ainda estavam sendo preparados pelo produtor. Lonas de plástico cobriam mudas para protegê-las do vento e da chuva. Outros pontos, sentindo os sinais da primavera, já ofereciam flores prontas para corte, como o allium. O terreno estava rodeado de casinhas lindas, como uma pintura de cena campestre. É a Suíça profunda.

A placa anunciava Selbst Pflücken (colha você mesmo) de um lado e, do outro, mostrava a lista de preços. Abaixo, uma caixinha para pagamento. Para quem colhesse flores, uma mesa equipada com papel celofane, fita adesiva, facas e amolador. Detalhe: o estabelecimento fornece sapatos de borracha nos tamanhos grande e pequeno para que os usuários circulem entre os canteiros e não se sujem. Um cuidado que o cliente agradece.

Será que isso tudo daria certo por aqui?

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