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Diz-se que o homem é aquilo que come. Esse ditado nos leva a filosofar sobre quanta influência o alimento tem sobre a gente. Quer dizer, lógico que o alimento tem uma direta influência em nosso físico, sobre a parte material do nosso corpo. E sobre a nossa camada, digamos, espiritual? Qual a influência da alimentação sobre nossa espiritualidade?

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Desde que o mundo é mundo, existe um caráter místico na comida. São oferendas, alimentação especial, jejuns ¿ essas práticas sempre estiveram presentes na maneira pela qual o ser humano expressa sua religiosidade, sua re-ligação com o divino. Na maioria absoluta das religiões existe alguma prática estreitamente ligada à alimentação ou à privação de certo tipo de alimento (ou de qualquer alimento, por determinado tempo). Isso é apenas um ritual ou realmente influencia na espiritualidade?

Certamente que influencia, diz Paresha Dasha, professor do Templo Hare Krishna de São Paulo. Para nós, os alimentos alteram o estado de consciência. De acordo com o Bhagavad-Gita, as impressões que alimentam nossos sentidos surtem efeito sobre nossas emoções. A qualidade dessas impressões, juntamente com o estado de consciência do indivíduo, oferece um acréscimo de valor ou faz com que ele se enfurne ainda mais na ansiedade e no sofrimento. Cada alimento tem um nível de energia, diz Paresha. Aquele cuja base é a matança de animais descontrola o indivíduo que se alimenta, emocionalmente falando. A emoção do animal (medo, ansiedade) continua na carne. Uma alimentação violenta traz um padrão de energia mais ansioso.

Logicamente que isso não basta para a pessoa se equilibrar ¿ lembre-se de que Hitler era vegetariano ¿ mas é condição essencial, afirma. E continua: O momento de preparar um alimento (a prática do Bhaktiyoga) também é sagrado. Porque você vai preparar uma comida que será oferecida à divindade. Existe uma arte de cortar as verduras, de dosar os temperos... tudo isso é oferecido a Krishna, a Deus, através de orações. Toda a sua energia vai se impregnar no alimento ¿ e vai passar para as pessoas que dele se servirem. O alimento, depois desse processo todo, se chama prassada, ou seja, a misericórdia da divindade, conclui Paresha.

No Budismo Tibetano, o alimento também exerce alguma influência sobre a prática espiritual.

No Tibete existem duas regiões distintas, as terras baixas e as terras altas. Nas terras baixas as pessoas são vegetarianas e nas altas, por causa do frio intenso, comem carne e muito pouco vegetal. O que eu sei, através das orientações que ouvi dos meus lamas, é que quando as pessoas estão muito instáveis emocionalmente devem se alimentar muitas vezes por dia e comer comidas que sustentem mais, como leite e ovos, por exemplo, pois elas assentam os ventos nos canais sutis onde a energia do corpo circula, diz Candida Bastos, do Odsal Ling, Centro de Budismo Tibetano em São Paulo. Em algumas práticas espirituais se recomenda que não se coma depois do meio-dia, e que as refeições sejam leves, sem condimentos brancos, do tipo cebola e alho, e sem a ingestão de proteína animal. Entretanto essa orientação é dada em determinadas práticas e também em alguns votos monásticos, completa ela.

Candomblé

No Candomblé, comer é um ritual sagrado, é agradar aos deuses. Quem nos explica um pouco é Lucia Helena Corrêa, cantora e seguidora do Candomblé: Os yorubás viviam (algumas tribos ainda vivem) do plantio do inhame (isu), milho (àgbado), feijão (ewa), quiabo (ilá) e mandioca (paki). E, para garantir a colheita farta, mas também em sinal de agradecimento pelo que lhes chega à mesa, eles oferecem aos orixás parte da refeição que contém esses alimentos, e que também se definem como comidas secas (livres do sangue ou qualquer bebida).

Quando a oferenda (ebó) leva um pedido de socorro (maleme), o sacrifício, imposto ao filho de santo, é abster-se de comer os alimentos oferecidos. Às vezes, apenas por algum tempo, outras vezes, para sempre, diz ela. Depende da gravidade da situação. O mesmo acontece no caso dos rituais de limpeza com alimentos. O filho de Obaluê que usar pipoca (flores), elemento de Obaluaê/Umulu para passar no corpo e, assim, libertar-se de alguma doença, dificilmente poderá voltar a comer pipoca. Alguns, no dia do orixá de cabeça (coroa), evitam comer alimentos que Ele coma, em sinal de respeito.

Jejum

A ausência de comida em algumas religiões é tão importante quanto o próprio alimento. O jejum é utilizado por vários povos, desde sempre, por vários motivos diferentes. O próprio Catolicismo mantém a tradição de se jejuar em algumas datas importantes. O Cristianismo herdou muito do Judaísmo quanto a este assunto, diz o Pe. Casimiro Irala, de Salvador. Mas nem tudo, porque o próprio Cristo selecionou, ficou com algumas coisas e deixou outras. Cristo não comia carne de porco, mas liberou isso a seus seguidores. Ele começou seu apostolado jejuando, e, quando tentado pelo demônio a transformar pedras em pães, respondeu que Nem só de pão vive o homem, e sim de toda a palavra que sai da boca de Deus, conta o Pe. Irala.

Segundo ele, antes se jejuava por doze horas antes de se comungar. Atualmente há um jejum simbólico de uma hora ¿ e, em se tratando de bebidas alcoólicas, de três horas.

Hoje, essa história de não se comer carne em dias específicos, de se fazer jejum, tudo isso foi relativizado. A importância está na penitência real, mais do que na material. As pessoas sempre trataram de driblar as leis, deixando, por exemplo, de comer carne no dia de abstenção deste alimento e abusando do peixe. O próprio Jesus disse que o importante é o espírito com o qual se jejua, os impulsos interiores, os motivos de amor. É isso que importa, sintetiza o padre.


Para saber mais

www.harekrishnasp.com.br
www.orixas.com.br
www.odsalling.org
www.opa.art.br


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