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Em seu apartamento parisiense, um casal de chefs do Brasil serve jantares elaborados para no máximo dez pessoas

Da entrada do prédio na bem-localizada rue Saint-Charles, no 15o distrito, em Paris, é possível ver a Torre Eiffel. Não há nenhuma placa na porta. Só quem já reservou um lugar à mesa com no mínimo uma semana de antecedência sabe que ali funciona um restaurante. Nada de cardápio, salão sofisticado e brigada de garçons. Em uma sala com móveis modernos e coloridos, quem cozinha, serve as mesas e sugere vinhos é o casal de brasileiros Célia e Gustavo Mattos. Eles recebem no máximo dez pessoas por noite para um jantar na própria casa, com menu-degustação de sete pratos.

Antes de arrumar as malas e mudar de vez para a França, nenhum dos dois tinha experiência alguma na área. Célia era professora de inglês e Gustavo publicitário. Mas a vontade de cozinhar sempre existiu. Ela acompanhava a mãe desde os nove anos na cozinha, e ele passou a se aventurar em jantares caprichados para a esposa nos dias em que ela chegava tarde. Além do interesse pelas panelas, os dois tinham mais uma coisa em comum: a insatisfação com a rotina profissional. Foi então que decidiram estudar sobre aquilo que mais gostavam. Procuraram cursos em todo o mundo. “Não queríamos algo longo, como uma segunda graduação e nos interessamos muito pela cozinha francesa, que é extremamente técnica, foi então que decidimos pela Le Cordon Bleu”, conta Célia.

Depois de nove meses de curso, o casal partiu para outros três de estágio em restaurantes parisienses – ela no Apicius e ele no La Maison Blanche , ambos com duas estrelas na classificação do conceituado Guia Michelin. Célia e Gustavo continuaram trabalhando na capital francesa e decidiram ficar em Paris. “O maior apelo foi a riqueza dos ingredientes locais e meu encantamento com as técnicas francesas”, conta ela. Assim surgiu o Chez Nous Chez Vous ("minha casa, sua casa", em francês).

Durante a passagem da dupla por Madri na última semana, por causa do megaevento Madrid Fusión, conversamos com Célia Mattos sobre a trajetória do casal e a dinâmica da casa-restaurante.

iG: Como surgiu a ideia de montar um restaurante em casa?
Célia Mattos: Quando decidimos que moraríamos em Paris, depois de concluir a Cordon Bleu, fizemos as contas e vimos que seria desperdício pagar aluguel, resolvemos que o ideal seria comprar um apartamento. Achamos esse imóvel lindo, amplo e com boa localização. Foi então que um amigo nosso, o Alfredo Brandi, nos disse que a gente deveria fazer uma cozinha aberta, já que sempre que ele ia à nossa casa a gente ficava longe dos convidados. Ele projetou nossa cozinha, linda, do jeito que sonhávamos. Quando estava pronta, pensamos que seria um desperdício ter uma cozinha toda equipada, só para nós dois. Foi um investimento muito alto. Resolvemos, então, inaugurar o Chez Nous Chez Vous.

iG: Vocês utilizam a mesma cozinha para o dia a dia e para o restaurante?
Célia Mattos: Não, na verdade temos duas cozinhas. Uma aberta para a sala, que utilizamos para finalizar e apresentar os pratos na frente dos clientes – que aqui em casa não são chamados assim, mas sim de convidados. A outra é fechada, onde ficam alguns equipamentos e onde é feita toda a preparação e é essa que usamos quando estamos só os dois em casa.

iG: É preciso reservar com muita antecedência?
Célia Mattos: Sim, pedimos no mínimo uma semana de antecedência. Isso porque pensamos no cardápio especialmente para o jantar, vamos ao mercado e escolhemos somente os ingredientes mais frescos para preparar as receitas. Depois disso ainda pensamos em alguns vinhos que poderiam harmonizar perfeitamente com os pratos, é um processo demorado. Se as pessoas quiserem, elas podem acompanhar, podem ir ao mercado conosco e, na hora de fazer a comida, damos uma pequena aula para quem quiser.

iG: E como é a seleção das receitas? Vocês costumam usar ingredientes brasileiros?
Célia Mattos: Como nosso público é composto em 90% por brasileiros, procuramos incluir ingredientes típicos da França no menu. Há um legume aqui que se chama panais, que pode até parecer um pouco com a mandioca, mas que é desconhecido para os brasileiros. Então para eles é muito mais interessante que eu ofereça um panais do que uma mandioca. No menu há sempre sete pratos no esquema confiança. Nunca revelamos o que será servido até o jantar. Mas fazemos um questionário por e-mail, perguntando o que as pessoas gostam de comer, se elas têm alguma restrição alimentar.

iG: Há algum prato que não sai do menu?
Célia Mattos: Sim. Fazemos um ovo com cozimento lento, ele fica em um forno a vapor por cerca de duas horas a uma temperatura de 65 graus. Todos adoram. Costumamos mudar as versões, agora estamos servindo com croutons de brioche, trufas negras, jamón ibérico seco e espuma de cogumelos.

iG: Quais são as vantagens e desvantagens de ter um restaurante dentro da própria casa?
Célia Mattos: Não vejo desvantagens. Eu sempre gostei muito de receber as pessoas, sou muito festeira. Deixo tudo à disposição: minha TV, uma coleção bacana de DVDs, muitos livros e meu telefone, que liga sem cobrança para o Brasil. A ideia é que todo mundo se sinta acolhido, daí vem o nome do restaurante, que significa “minha casa, sua casa”.

iG: Vocês pensam em abrir um restaurante maior?
Célia Mattos: Não. Se um dia eu tiver outro restaurante, quero que seja como este. Uma pequena sala para poucas pessoas. Nunca quero que minha cozinha se torne uma linha de produção, algo mecânico. Pode parecer clichê, mas quero guardar o artesanal, nunca perder o amor por cozinhar. Não quero ser daquelas que pensa “ai que droga, hoje vou ter que preparar 40 pratos iguais”. Hoje a gente tem muito prazer. Passamos um dia inteiro planejando o que vamos servir à noite.

Serviço
Chez Nous Chez Vous
116 Bis, Rue Saint Charles, 75015, Paris, França, tel: +33 (0) 1 45 30 58 92 ou +33 (0) 6 70 78 57 45
O jantar custa entre 100 e 120 euros por pessoa e inclui sete pratos, água, refrigerantes, café e chás.

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