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Os sabores do Brasil no paladar português são parte da relação histórica entre os dois países

A historiadora portuguesa Isabel M. R. Mendes Drumond Braga sugere um abraço fraternal entre as culturas brasileira e portuguesa no seu livro Sabores do Brasil em Portugal [Senac, 2010, R$60,00]. Em entrevista concedida ao iG Comida , a autora diz que o açúcar brasileiro colaborou com a democratização da típica doçaria portuguesa aqui e que em Portugal há restaurantes onde ingredientes e pratos brasileiros podem ser apreciados.

Isabel afirma que a mandioca, marca da culinária nacional e valorizada por chefs brasileiros e do exterior, é um produto que "não agrada tanto o paladar português. Na realidade, só no Brasil os portugueses se renderam ao ingrediente, por questões de sobrevivência, e ainda assim, alguns a contragosto.”

A pesquisa lembra ainda que a passagem da corte portuguesa pelo Rio de Janeiro, apresentou à mesa brasileira chá e utensílios de prata. Sendo generosamente recebida pela sociedade da época.

No livro também são mostrados aspectos históricos da relação luso-brasileira. A autora traz à atualidade percepções de Portugal sobre o Brasil, detalhando a vinda dos portugueses no período colonial e a emigração de brasileiros atualmente.

Antes da entrevista completa veja algumas imagens que ilustram a obra da autora





























iG Comida: No seu livro Sabores do Brasil em Portugal a senhora menciona a tendência de pessoas atualmente priorizarem sabores locais. Como se deu a relação dos portugueses com os sabores brasileiros ao conhecerem nosso país?

Isabel: Os sabores brasileiros foram sendo descobertos pelos portugueses na medida em que chegavam ao Brasil. A receptividade à culinária brasileira foi boa, apesar de hábitos tão distintos. As práticas gastronômicas brasileiras são resultado de várias influências nativas, africanas e de diversas nacionalidades europeias. Sabores, temperos e técnicas culinárias não são totalmente alheios ao gosto português.

iG Comida: Para a realização desse trabalho a senhora visitou o Brasil? Que autores brasileiros foram consultados?

Isabel: Visitei o Brasil várias vezes antes e depois de realizar este trabalho. Cheguei a morar no Rio de Janeiro entre agosto e dezembro de 2009, mas já tinha finalizado as pesquisas para esse livro. Consultei obras fundamentais de pesquisadores como Gilberto Freyre e Luís da Câmara Cascudo e outros mais atuais como Leila Mézan Algranti, Carlos Roberto Antunes dos Santos, Mônica Chaves Abdala.

iG Comida: Entre os ingredientes levados do Brasil para Portugal, quais foram mais bem adaptados à culinária portuguesa?

Isabel: Temos que levar em consideração que o Brasil faz parte do continente americano, assim podemos destacar a batata, o milho e o tomate, por exemplo. O milho foi imediatamente aceito como uma alternativa à falta de trigo. A batata só se generalizou no século XIX. O tomate foi pouco consumido até ao final do XVIII e o peru foi bem recebido desde cedo. No que se refere ao milho, à batata e ao tomate o solo e as características dos produtos foram essenciais para a progressiva aceitação. No caso do peru era um galiforme maior, mas semelhante ao restante desde sempre consumidos.

iG Comida: Mesmo o mais pobre europeu, conforme mencionado em sua obra, não consumia os alimentos que faziam parte da dieta de negros e índios no Brasil. Qual o principal critério de adaptação de ingredientes brasileiros na culinária portuguesa?

Isabel: No começo os portugueses resistiram à maioria dos produtos consumidos no Brasil, mas depois se adaptaram. Ou seja, dado que não tinham acesso a certos produtos europeus e precisavam saciar a fome e ultrapassar preconceitos, a opção foi "domesticar" esses alimentos. Isto é, consumi-los de forma semelhante ao preparo em Portugal. Como por exemplo, a mandioca em forma de farinha, substituindo o trigo. Alguns portugueses acabaram por se tornar fãs de produtos brasileiros.

iG Comida: No livro há uma parte que trata de rejeições e desejos aos novos sabores da colônia. Em relação à mandioca, podemos dizer que os europeus se renderam ao ingrediente típico do Brasil?

Isabel: Ainda hoje a mandioca não é um produto tão apreciado em Portugal e na Europa. Entretanto, pode ser encontrada em comunidades ou restaurantes brasileiros. Na realidade, só no Brasil os portugueses se renderam ao ingrediente e ainda assim, alguns a contragosto. Em Portugal, como no restante Europa, a mandioca nunca foi objeto de consumo, uma vez que havia preconceitos e alternativas.

iG Comida: Em algum momento, como na passagem da corte pelo Rio de Janeiro, houve uma fusão de hábitos europeus e brasileiros na culinária do Brasil colonial?

Isabel: Hábitos portugueses foram levados ao Brasil que, em contato com os hábitos dos índios e com os recursos da terra, proporcionaram uma culinária com marcas das diferentes realidades. Com a passagem da corte portuguesa pela cidade do Rio de Janeiro, as mudanças estiveram mais relacionadas à etiqueta e os modos à mesa que necessariamente aos hábitos de consumo e ao preparo dos alimentos. Notamos nessa época ainda um certo requinte. Baixelas, pratas e porcelanas foram trazidas à mesa brasileira juntamente com o consumo de chá, até então desconhecido no país.

iG Comida: Como a senhora contextualiza a tradição doceira de Portugal associada à abundância de frutas e açúcar no Brasil?

Isabel: A tradição de doces em Portugal é anterior à produção de açúcar no Brasil, entretanto, podemos considerar que o cultivo desse ingrediente no país potencializou a produção em Portugal, ou seja, aumentando a quantidade e não a diversidade dessa iguaria portuguesa. O açúcar foi difundido em Portugal no século XV, sendo a cultura da cana realizada no arquipélago da Madeira. Os frutos utilizados na doçaria portuguesa são os habituais na Europa. Na tradição doceira portuguesa há que salientar amêndoas, de influência árabe e bastante ovos.

iG Comida: Qual o papel de Portugal na expansão de ingredientes brasileiros, como o cacau, por exemplo, para que esses pudessem ser conhecidos na Europa?

Isabel: É difícil determinar produtos e ingredientes que foram disseminados nessa ocasião, uma vez que tanto portugueses quanto castelhanos colaboraram para difusão de ingredientes do continente americano na Europa. O cacau, por exemplo, foi divulgado pelos castelhanos, foram eles os primeiros europeus a consumi-lo.

iG Comida: Frutas como maracujá, caju e ananás foram apreciadas por portugueses no período colonial. Qual a relação atual da culinária de Portugal com esses produtos típicos do Brasil?

Isabel: Com exceção do ananás, hoje cultivado em São Miguel, nos Açores, o caju e o maracujá não têm qualquer ligação com a culinária portuguesa. Apenas em alguns restaurantes brasileiros poderá encontrar alguma mousse de maracujá ou então bebidas e pudins feitos com essa fruta.



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