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Por amor às panelas, eles abandonaram suas antigas carreiras para assumir o posto de chef de cozinha

Eles descobriram que a realização de suas vidas estaria num lugar quente e cheio de fumaça
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Eles descobriram que a realização de suas vidas estaria num lugar quente e cheio de fumaça
A Osteria Francescana, em Modena, Itália, é considerada pela revista londrina Restaurant o sexto melhor restaurante do mundo. Seu chef, porém, não começou a vida estudando hotelaria como prevê o roteiro clássico dos grandes cozinheiros europeus. Até pouco mais de 20 anos, Massimo Bottura trabalhou na empresa da família, de produtos petrolíferos. Só depois é que o rapaz decidiu investir no sonho alimentado desde a infância e, para desespero de seu pai, largou emprego e foi cortar cebola numa trattoria. Como ele, outros chefs demoraram a seguir a vocação e assumiram outros compromissos profissionais antes de entender (ou assumir, ou descobrir) que a realização de suas vidas estaria num lugar quente, cheio de fumaça e onde sentar é proibido: a cozinha.

Juarez Campos:
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Juarez Campos: "Confisquei os cadernos de receitas da minha mãe, da sogra e comecei a cozinhar”
Juarez Campos é farmacêutico bioquímico e foi um importante professor universitário em Vitória, Espírito Santo. Hoje, o chef coleciona prêmios com o seu festejado Oriundi , na mesma cidade. Sua história com as panelas começou quando ele, ainda garoto, saiu de Alegre e foi fazer faculdade em Vitória. “Como eu morava em república tinha que fazer minha própria comida”, diz. Os mexidões, prato feito com restinhos de ingredientes, reinavam na mesa do então estudante.

Mas o livro que ganhou de presente da namorada, “Nem só de Caviar Vive Homem”, de Johannes Mario Simmel [editora Nova Fronteira] -- romance sobre um espião que escolhe a cozinha para praticar criatividade --, foi um divisor de águas no cardápio de seus colegas de aluguel. “Foi quando confisquei os cadernos de receitas da minha mãe, da sogra e comecei a cozinhar.” A melhor prova de que deu certo é que Juarez está casado com a moça de quem ganhou a obra até hoje, 32 anos depois.

Depois de estudar na Itália e fazer os cursos de Laurent Suaudeau em São Paulo, Juarez achou que, finalmente, podia ser chamado de chef. Na ocasião, seu restaurante já fazia enorme sucesso em Vitória e tinha conquistado inúmeros prêmios de publicações locais. "Uma vantagem de começar tarde na profissão é que a gente já é maduro o suficiente para não acreditar em elogios", diz o chef. A fase em que trabalhou como pesquisador ajudou (e muito) a sua projeção no meio, numa época em que a nova cozinha espanhola (leia-se gastronomia molecular) dominou o mundo. "Ser convidado para ir ao programa do Alex Atala (Mesa para 2, no GNT) para explicar quimicamente os processos de cocção foi um dos grandes momentos da minha carreira", afirma.

Tereza Paim:
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Tereza Paim: "Eu podia arriscar, não ia morrer de fome"
A baiana Tereza Paim também refinou seus aprendizados na escola paulistana de Laurent. Depois de 21 anos trabalhando na própria empresa de telecomunicações, a chef aproveitou a gravidez como deixa para realizar o desejo reservado para o período de sua aposentadoria.

A situação econômica tranquila que tinha alcançado nos tempos de doutora ajudou para a tomada de decisão. "Eu podia arriscar, não ia morrer de fome", afirma a chef do Terreiro Bahia , na Praia do Forte.

Começar na nova profissão não foi difícil para Tereza. Assim que decidiu mudar de área, ela encontrou uma amiga num shopping em Salvador a procura de um bufê que fizesse uma festa de Réveillon para mil pessoas. Negócio fechado e a então cozinheira doméstica partiu para o planejamento do acontecimento. "O sucesso de um grande evento é 40% logística e isso eu conhecia bem", afirma. Heranças da época em que trabalhou com vendas.

Carlos Ribeiro: “Quando me dei conta tinha mudado de profissão”
Eduardo Magno / Divulgação
Carlos Ribeiro: “Quando me dei conta tinha mudado de profissão”
Carlos Ribeiro, do paulistano Na Cozinha , sempre teve seus quitutes elogiados por parentes e amigos. Assim, aos 26 anos o então professor universitário de relações públicas decidiu fazer um pequeno restaurante no fundo da casa dos pais, na Paraíba, para juntar os prazeres de cozinhar, receber e, de quebra, tirar uma graninha extra. “Com o dinheiro que juntei em um ano fui para Nova York de primeira classe”, diz. Bons tempos. Quando se mudou para São Paulo para fazer mestrado, o chef começou a fazer jantares em casas de conhecidos para complementar sua renda. À experiência como professor ele juntou o talento nato e começou a dar cursos de cozinha na capital brasileira da gastronomia. Como a coisa virou nem ele sabe ao certo. “Quando me dei conta tinha mudado de profissão ”, afirma.

Estas histórias são bons exemplos de que fugir da verdadeira vocação é questão de tempo, apenas. Juarez afirma que, como chef de cozinha, seu lucro é bem inferior do que na antiga ocupação. Mas o que ganha em realização, sem trocadilho, não tem preço. “A gente nasce para ser feliz, não é isso?” Deveria, chef. Deveria.

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