A mulher do chá

Uma conversa com a empresária gaúcha Carla Saueressig, especialista em chá para beber e estudiosa do chá para comer

Marcela Besson, iG São Paulo |

Marcos Mendes/Foto Arena
"Eu vendo chá-prazer, não chá-remédio", diz a especialista Carla Saueressig
Chá é prazer. A frase soa quase como um mantra para a empresária Carla Saueressig. Bem-humorada, esta gaúcha nascida em Sapiranga, a 60 quilômetros de Porto Alegre, brinca que todo brasileiro tem sempre na manga uma receitinha de chá para curar ressaca, gripe ou dor de barriga. “Para muitos, infelizmente, ele é sinônimo de rrremédio”, diz num divertido ‘erre’ gauchesco. E completa: “As pessoas precisam descobrir o quanto o chá pode ser prazeroso, assim como o vinho e o café”.

Como o Brasil não tem tradição no assunto, é natural presumir que o trabalho de Carla para difundir o consumo da bebida por aqui seja feito a conta-gotas. Mas o esforço tem gerado boas colheitas. Aberta em 1999, a sua A Loja do Chá, em São Paulo, é um misto de ponto de venda e espaço para degustação – o primeiro do gênero a ser inaugurado no Brasil. Tornou-se referência por causa das mais de 250 versões da bebida disponíveis no balcão. Pensou nas populares infusões de saquinho, fáceis de encontrar nos supermercados? Não é bem isso.

Carla comercializa chás especiais da marca alemã Tee Gschwendner, da qual é representante na América do Sul. São produtos orgânicos, feitos a partir da planta Camellia sinensis – espécie que dá origem aos chás dos tipos verde, branco, preto e oolongo. Os exemplares são colhidos em países como Índia, China, Japão e Indonésia, depois embalados na Alemanha e trazidos ao Brasil para ser vendidos a granel.

A empresária já degustou todos eles – ela toma, no mínimo, três xícaras de chá por dia. Para aumentar seu repertório, viaja constantemente para participar de provas da bebida na Europa. Tamanha experiência garante a ela convites para criar blends para restaurantes e empresas. A mistura mais recente foi feita exclusivamente para a companhia aérea TAM e é servida apenas nos voos internacionais. Além disso, seus recentes estudos sobre o uso dos chás na gastronomia lhe renderam parcerias importantes com chefs de cozinha e ainda um projeto para escrever um livro sobre o tema.

Carla Saueressig falou com a reportagem do iG Comida sobre seu trabalho. Uma conversa regada a chá e simpatia.

iG Comida: O chimarrão foi para você uma espécie de iniciação ao universo dos chás?
Carla Saueressig: De certa forma, sim. Hoje posso dizer que troquei o chimarrão pelos chás. Como bons gaúchos, meus pais sempre tomaram chimarrão. Eu também gostava da infusão de mate. Mas, aos poucos, fui descobrindo o sabor refinado dos chás. Na juventude, quando íamos ao Uruguai, lembro que minha mãe comprava chás a granel. Ela era excelente cozinheira e fazia do forno e fogão um laboratório. Naquela época, já misturava chás e sucos de frutas, coisa que estamos tentando fazer agora. Em viagens, ela economiza na hospedagem para gastar mais com comida. Herdei dela essa curiosidade por sabores e aromas, que podem ser tão bem explorados no universo dos chás.

iG Comida: É difícil falar de chá no Brasil?
Carla Saueressig: Bah! É muito difícil (risos). Primeiro, pela concorrência quase desleal que temos com o café. Segundo, porque o chá nunca fez parte originalmente da nossa cultura. A maioria dos brasileiros desconhece a diferença entre o verdadeiro, feito da planta Camellia sinensis , e os populares saquinhos vendidos no supermercado, que são produzidos a partir de flores, frutas, especiarias e ervas comuns, como camomila e cidreira. Não que esses sejam ruins, mas são diferentes, menos complexos. Além disso, muitos pensam em chá apenas como remédio. Todo mundo tem uma receitinha para curar ressaca ou dor de barriga. Eu vendo chá-prazer, não chá-remédio. Meu trabalho é fazer com que as pessoas aprendam a tomar a bebida sem fazer careta, sentindo o perfume e o sabor deles.

iG Comida: Mas isso leva tempo, não? É preciso ser especialista para perceber e distinguir essas características?
Carla Saueressig:
Faz dez anos que estou nessa área e todos os dias me deparo com gente nova descobrindo e se surpreendendo com os chás. Não é preciso ser especialista para degustar a bebida. Experimentar chás é ativar a memória olfativa, um exercício que pode ser, aliás, muito divertido e prazeroso. Tenho amigos que se encantaram com infusões porque se lembraram de algum momento da infância ou de uma viagem especial. Claro que a prática leva à perfeição. Minha dica é começar pelos chás aromatizados, que são blends de chás verde ou preto mesclados com flores, frutos, ervas ou especiarias. Eles são intensos e sensíveis ao olfato e ao paladar. Depois de um tempo, fica mais interessante tomar chás verde e preto puros, que são mais delicados e difíceis também.

iG Comida: Como é sua rotina de provadora de chás?
Carla Saueressig:
Eu tomo, no mínimo, três xícaras por dia, variando entre branco, verde, preto e as versões aromatizadas. Gosto de todos, mas a escolha depende muito do humor, da companhia, do horário, das estações do ano, se quero me concentrar ou comemorar alguma coisa. Evito ao máximo vinho, café, cerveja e alimentos muito condimentados, para preservar meu paladar, e faço treinamentos periódicos na Alemanha, onde fica a sede da Tee Gschwendner, marca que eu represento aqui na América do Sul.

iG Comida: Homens e mulheres costumam ter gostos diferentes para chás?
Carla Saueressig:
Isso não é nada científico, mas no dia-a-dia percebo que eles gostam mais dos cítricos e elas se encantam com os tipos adocicados e florais. Sem contar os pedidos clássicos: mulher quer chá para emagrecer e homem, para a virilidade. Mas essa questão de preferência é apenas uma regra casual, até porque não há dados disponíveis sobre o consumo de chá no Brasil. Fico intrigada quando dizem que ela é a bebida mais tomada no mundo depois da água. Se excluirmos o Oriente, o chá cai no ranking para a centésima posição. No Brasil, como disse, ele nem é considerado nas estatísticas.

iG Comida: Essa desconfiança dos brasileiros em relação ao chá, além da questão cultural, tem a ver também com o preço do produto?
Carla Saueressig:
Se o compararmos com as infusões comuns, vendidas no supermercado, sim. Mas é importante esclarecer que o chá não tem o mesmo valor agregado dos vinhos. Tenho cerca de 250 variedades na loja. A mais cara é o Yin Zen, um chá branco orgânico produzido na China. As folhas e os brotos são cuidadosamente colhidos no início da primavera, somente por mulheres, e passam por um processo delicado de fermentação, de mais ou menos 2%. O litro desse chá tão raro não chega a custar 100 reais. Guardadas as proporções, esse valor é baixo se comparado aos vinhos top de linha.

Marcos Mendes/Foto Arena
Carla também usa o chá como ingrediente em receitas salgadas e doces
iG Comida: Falando em vinho, é possível fazer uma harmonização de chás e comidas?
Carla Saueressig:
Sim, claro. Em geral, carnes vermelhas e massas com queijo combinam bem com chá preto, que é fermentado e bastante encorpado. Peixes, saladas e frutos do mar se dão melhor com verdes e brancos, que são mais leves. Mas o chá pode muito bem ir além da xícara. Digo isso porque tenho estudado muito sobre o seu uso como ingrediente no preparo de pratos. Vários quitutes e docinhos vendidos na minha loja em São Paulo são feitos à base deles. Tenho um projeto de fazer um livro com receitas de comidas preparadas com chás.

iG Comida: Isso tem a ver com a parceria que você fez com a TAM em 2010?
Carla Saueressig:
Sim. O primeiro contato com a companhia veio em 2008 e, desde então, venho estudando sobre o uso culinário da Camellia sinensis . A pesquisa serviu de base para desenvolver o conceito do novo cardápio de bordo da TAM, em que os pratos são preparados com chás. A criação das receitas é mérito da chef Helena Rizzo, do restaurante paulistano Maní. Minha tarefa foi explicar o melhor jeito de usar a planta como tempero. Aí, para harmonizar a refeição servida apenas nos voos internacionais, desenvolvi também um blend exclusivo de cor vermelha com sabores de frutas, flores e um toque de baunilha.

A Loja do Chá - Tee Gschwendner
São Paulo: Shopping Iguatemi, 3º piso, (11) 3816-5359
Brasília: CLS 408 Bloco C, loja 13, (61) 3443-4458 

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