Tamanho do texto

A receita do doce artesanal da Tia Nata. Mais: a história da cidade que, ao sul de Minas, virou destino gastronômico

Monte Verde: clima europeu e boa comida fazem da cidade ao sul de Minas um ótimo destino neste inverno
Rita Grimm
Monte Verde: clima europeu e boa comida fazem da cidade ao sul de Minas um ótimo destino neste inverno

Verner Grinberg nasceu na Letônia, em 1910 e morreu no Brasil em 2006. Chegou ao país aos 3 anos de idade. Trabalhou com o pai na construção de Campos do Jordão e de outras cidades no oeste de São Paulo. Proprietários de serrarias, esses madeireiros na década de 20 cortavam pinheiros com serras manuais. O trabalho era duro, mas compensava. Verner e seu pai sempre sonharam encontrar um lugar parecido com a Letônia: bonito, de clima bom, com paisagens maravilhosas e que principalmente fosse saudável (Campos do Jordão era para tuberculosos, sua mãe morreu lá quando ele era garoto, tinha 7 anos). Ao saber da bela região de Campos de Jaguari (atual Monte Verde, já no estado de Minas Gerais), Verner partiu com o pai numa viagem metade de trem e metade a cavalo para conhecer as quase inatingíveis terras, uma grande fazenda. Encantaram-se, conseguiram comprar cinco alqueires e tomaram posse em 1938.

Verner Grinberg descrevia a região como "uma área de florestas de pinheiros (araucárias) intercalada de campos naturais e pastagens e córregos muito limpos de água gelada”. Seu sobrenome, Grinberg significa Monte Verde, em alemão (Grün Berg) e foi ideia de Verner e sua esposa Emilia nomear assim o vilarejo, Monte Verde. Com o dinheiro da serraria, compraram mais e mais terras. No início, para atrair mais pioneiros, doaram terrenos. Depois, venderam grandes extensões e, para atrair ainda mais gente, dividiram-nas em lotes menores. Muitos vieram.

Em 1952, com sua casa de alvenaria construída, Verner mudou-se definitivamente para Monte Verde com Emília. Foi o responsável por toda a infra-estrutura, trazendo estradas, eletricidade, distribuição de água para as casas, abrindo uma olaria, uma pedreira, construtora, escola e, na maioria das vezes, tudo pago do próprio bolso. O primeiro lote urbano foi vendido em julho de 1954. Segundo Verner, foi quando Monte Verde começou, quando deixou de ser fazenda para ser cidade. A energia elétrica só veio em 1969. Chegaram a Monte Verde mais letos, alemães, suíços e italianos. A bandeira foi criada em 1980, inspirada nas cores da Letônia, com os mesmos símbolos: sol, pinheiro e gelo. A vila acabou ganhando o apelido carinhoso de Suíça Mineira devido ao clima, ao relevo e à arquitetura.

Dos anos 60 para cá, a cidade cresceu e mudou para melhor. Hoje, Monte Verde tem cerca de 5000 habitantes. Pertence ao distrito de Camanducaia, na porção sul da Serra da Mantiqueira, ao sul de Minas Gerais. Esta cidade turística está a 1600 metros de altitude, tem uma área que ocupa quase 700 alqueires e sua rede hoteleira permite receber até 8000 pessoas. Turistas enchem a Avenida Monte Verde, a rua principal. Procuram souvenirs, produtos regionais, restaurantes, bares ou algum lugar para tomar um cremoso chocolate quente e “driblar” o frio. Paraíso ecológico protegido por lei ( área de mananciais, pertence à Área de Proteção Ambiental - APA), Monte Verde ainda conserva sua vegetação original de Mata Atlântica e suas florestas de araucárias, algumas centenárias. O turismo ecológico vem crescendo rapidamente na região e o Rio Jaguari é considerado um dos cinco melhores rios para rafting do país. Há bastante literatura sobre as oito melhores trilhas nos arredores da cidade, são cinco picos principais: Pedra Redonda, Pedra Partida, Chapéu do Bispo, Pico do Selado (2080 metros de altitude) e o Platô. Lugares lindos, com água pura. O clima seco e frio oferece dias ensolarados na maior parte do ano, mas atenção: assim que o sol se põe, a temperatura cai rapidamente. No inverno, pode chegar a oito graus negativos. Mesmo no verão o visitante deve levar agasalho. 

Prato do restaurante alemao Chop do Fritz: o
Rita Grimm
Prato do restaurante alemao Chop do Fritz: o "Schlachtplatte", completão, sai por 85 reais e atende ao paladar de quatro pessoas

Depois de caminhadas, cavalgadas e escaladas, é hora do melhor em Monte Verde: comer

É nesse ambiente montanhoso, europeu e de baixas temperaturas que moradores e visitantes valem-se de uma das coisas que Monte Verde tem de melhor: a comida. A boa mesa sempre foi um dos pontos fortes da vila, que oferece delícias da cozinha mineira e europeia. Por todo lugar que se passa existe um ponto interessante para fazer uma parada estratégica: comida típica mineira, casa de chá, restaurantes suíços, alemães, restaurante que só serve sopas, outro com trutas. No Chopp do Fritz, por exemplo, restaurante alemão desde 1993, Jörg Franz Schwabe - alemão, proprietário e mestre cervejeiro - oferece, entre outros pratos, o completíssimo "Schlachtplatte". Sai por 85 reais e aplaca a fome de até quatro pessoas. Há comida italiana, portuguesa, especialidades com javali, com pinhão, cervejaria artesanal, temporada de morangos, chocolates, strudels, bolos, tortas... Enfim, uma infinidade de opções.

Embora seja importante para os moradores conservar o modo de vida simples da vila, eles reconhecem que é preciso crescer e oferecer bom atendimento aos hóspedes. Para tanto, o selo de qualidade “Plátano de Ouro” garante excelência dos serviços prestados por hotéis, pousadas, restaurantes e bares; quem ganha com tudo isso é a comunidade e o visitante: Monte Verde está lotada para a temporada de inverno 2010, com turistas de todo Brasil e do exterior. Mérito do fundador Verner Grinberg, que sempre foi favorável à chegada de progresso. Em uma de suas últimas entrevistas, ele comenta sobre a necessidade de asfalto e lamenta que a avenida principal tenha ficado estreita. “Antigamente não dava nem para imaginar que todos teriam carros. Se soubesse que Monte Verde ficaria assim, teria planejado uma rua ainda mais larga. Naquela época, era apenas uma trilha que passava por uma fazenda. Foi muito difícil chegar ao que é hoje, pois os proprietários não queriam ampliar”.

A geleia dos pioneiros

Donatila Mathilde de Abolin Lucas e Arnist Renats Lucas fazem "a melhor geléia de Monte Verde". Explica-se: os russos invadiram a Letônia na Primeira Guerra Mundial e os pais desses dois moradores de Monte Verde fugiram para o Brasil. Donatila nasceu em São Paulo e conheceu Arnist em Tupã, em uma colônia de letos. Os Grinberg doaram terras ao pai de Lucas e foi assim que acabaram ligados a Monte Verde. Seu pai e o pastor da cidade foram os primeiros contemplados a receber os terrenos e foram imediatamente fazer o registro, no dia 29 de novembro de 1950, dia do aniversário do lugar. Se lembram que na época levavam um dia de viagem para chegar de São Paulo. Faziam baldeações, dependiam de autorização para atravessar algumas terras no caminho e ainda precisavam de gente da cidade para buscá-los e conduzi-los até a vila. Era muito difícil.

Desde que se casaram, Donatila e Lucas tiveram o desejo de viver em Monte Verde. “Nós vínhamos todos os finais de semana, não sabíamos ficar sem vir, até as idas à praia abandonamos”, conta Donatila. Como ambos trabalhavam em São Paulo, mudaram-se definitivamente apenas quando se aposentaram, há quase 20 anos.

Foi então que os amigos começaram a requisitar as deliciosas geleias que Donatila aprendeu a fazer com sua avó. Desde criança, subia num banquinho e ficava ao lado dela e ajudava a mexer. Lucas também ajudava a mãe a fazer geleias. “Tinha muita fruta, eu precisava ajudá-la colhendo, limpando, cortando.”, explica. Começaram em Monte Verde com amoras e framboesas. Até pouco tempo arrendavam terras, aravam, adubavam, plantavam e colhiam as próprias frutas para fazer suas geléias. Com a idade, passaram a comprar as frutas de produtores da região e só ficaram com os kiwis, plantados no quintal. Alias, que quintal lindo que eles possuem, com árvores plantadas desde a época da construção. Gastam 5kg de açúcar só para atrair sabiás, beija-flores e outros pássaros, além da jacutinga e do tucano de estimação, moradores do quintal.

Hoje produzem geleias de morango, amora, framboesa, kiwi, damasco e laranja. Vendem mel, favo e própolis. A casa está sempre cheia de compradores. Enquanto Donatila atende aos visitantes, Arnist prepara geleias e sempre que pode, escapa da cozinha para conversar com as pessoas e contar suas histórias. Formam um casal muito simpático, construíram uma bela casa em Monte Verde e estão em todos os guias da cidade, vale a pena a visita. Para o IG Comida prepararam geléia de morango, uma receita fácil para todos poderem fazer em casa. É conferir.

Geléia de Morango da Tia Nata
Rendimento: 10 potes de 250 gramas

Ingredientes
7kg de morango
3,5kg de açúcar
2 limões suculentos

Preparo
Escolha apenas morangos inteiros, bem durinhos. Lave e retire as folhas. Dica: como o Arnist Lucas recomenda, pode-se aproveitar os restos do morango e usá-los como adubo orgânico para as plantas do quintal. Em uma panela grande ou num tacho de cobre, coloque os morangos e cubra-os com o açúcar. Misture bem, com cuidado, mexendo sempre. Esprema e adicione os limões. Mexa em fogo alto até começar a ferver. Assim que ferver, baixe o fogo e deixe por quatro horas, mexendo sempre. Detalhe: para a geleia de amora, a fervura leva sete horas. Para a de laranja, três dias!

O ponto é importante: no início da fervura, surgirá uma espuma. Em seguida, essa espuma se transformará em bolhas. Depois, quando engrossar, as bolhas começarão a “explodir” de maneira “seca”, quase como bombas, explica Lucas. Ele tem experiência, sabe a hora de parar. Para quem vai fazer em casa pela primeira vez, a sugestão é sempre colocar num pires e ir provando, observando e testando a consistência e o sabor, aquele ponto de geleia.

Coloque a geleia no pote e espere esfriar: é muito importante esfriar para não ocorrer vapor dentro do vidro e estragar o doce. Quando esfriar por completo, com o auxílio de um palitinho, fure todas as bolhas de ar que ficam no topo e só depois feche os potes. “É para durar mais, pois não usamos conservantes, é tudo artesanal.”

Orgulhosos de sua história e da vida que construíram juntos, Donatila e Lucas se despedem de nossa reportagem fazendo um convite aos leitores. “Venham para Monte Verde, deixem-se levar pelo ambiente de gastronomia daqui, nossa comida é muito boa.”

Serviço:

Chop do Fritz: http://www.choppdofritz.com.br/noticia_mv.php

Geleia da Tia Nata: Rua Bem Te Vi, 84, tel: (35) 3438-1641

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.