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Alta da gastronomia, cada vez mais na mira da nova classe média, leva chefs para a ficção

Se nos anos 70 o tema comida em novelas era exclusividade das empregadas domésticas -- caso da Tia Nastácia, do “Sítio do Picapau Amarelo”, e da retirante Gabriela, de "Gabriela" --, na década seguinte a história começou a mudar. Raque Acioly, personagem vivido por Regina Duarte, em "Vale Tudo", deu um passo adiante com a criação do bufê Paladar e a transformação de uma atividade caseira em um negócio profissional e rentável. Hoje, os chefs aparecem nas tramas com formação superior e grande bagagem cultural – basta olhar para Nina, de "Avenida Brasil", que indica obras complexas de autores como Kafka e Flaubert a seu patrão. Invencionices de autores que gostam de frequentar restaurantes bacanas? 

“Isso é um reflexo da realidade”, afirma o autor de novelas Gilberto Braga. De fato, a gastronomia parece ter entrado de vez no dia a dia das pessoas. Tempo atrás, a figura do chef pouco aparecia. Diferente de hoje, que cozinheiros apresentam programas de televisão, fazem comerciais e têm status de estrela – nada mais natural que eles comecem então a pipocar nas novelas.

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Foi assim em “Senhora do Destino”, onde o chef Edgar (Dan Stulbach) paparicava Isabel (Carolina Dieckmann) com comidinhas gostosas. Depois, veio Heitor (Daniel Dantas), de “Paraíso Tropical”, que não sabia se abria o próprio estabelecimento ou ficava nas mãos dos patrões. Mais recentemente, em “Insensato Coração”, a quituteira Fabíola (Roberta Rodrigues) teve seus croquetes avaliados (e aprovados!) por um crítico gastronômico, e René Velmont (Danton Vigh), de “Fina Estampa”, fechou a casa de sotaque francês e abriu uma de comida brasileira. A bola da vez é a jovem Nina (Débora Falabella), de “Avenida Brasil” – e, claro, as cozinheiras e cantoras de “Cheias de Charme”, que não estão no horário nobre, mas estouraram no País inteiro.

Na próxima novela das nove, “Salve Jorge”, ambientada na Turquia, a gastronomia também vai ter destaque. Mais detalhes não podem ser adiantados, mas o consultor gastronômico Écio Cordeiro de Mello (o mesmo que treinou as empreguetes de “Cheias de Charme” e a chef de “Avenida Brasil”) já deu até um workshop para o elenco se familiarizar com o tempero daquele país.

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Esses personagens, claro, também servem para alfinetar o mundinho gastronômico. “Essa era exatamente a minha intenção com o Heitor, de 'Paraíso Tropical'. Havia ali uma crítica à cozinha 'modernosa', que tem feito tanto muito sucesso ultimamente, e que eu chamo de 'camarão com chocolate'. Na verdade, gosto mesmo é da cozinha simples, em que o gosto do ingrediente é valorizado”, afirma Gilberto -- também autor de "Vale Tudo".

Discussão semelhante foi ao ar recentemente em “Amor, Eterno Amor”, atual novela das seis. Em um jantar romântico, Laura (Giulia Gam) programava com Henrique (Murilo Grossi) uma viagem a Copenhage com visita ao Noma, eleito por uma conceituada revista britânica o melhor restaurante do planeta. Na conversa, o estabelecimento era descrito como um lugar delicioso, que não serve invencionices como espumas e esferas, e sim “comida de verdade”.

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Na opinião do roteirista Antonio Prata, um dos colaboradores de João Emanuel Carneiro no texto de “Avenida Brasil”, os autores criam os personagens tentando levar à telinha os novos interesses da audiência, que a cada dia amplia seu poder aquisitivo e sofistica seu paladar. “Nessa novela das nove, a ideia é que a classe média se veja retratada. E os gostos e hábitos da classe C emergente estão mais parecidos com o da classe alta”, avalia.

Para Fernando Oliveira , colunista do iG , esse crescimento também pode ser atribuído ao fato de que é na cozinha que se especula a vida dos personagens centrais. “Nesse ambiente, as protagonistas investigam e armam maneiras de desmascarar os vilões e conquistar seus amados”, observa.

E a presença dos chefs nas tramas também tem caráter educativo. Com o aumento do interesse pela gastronomia, esses personagens são uma excelente maneira de introduzir na cultura popular receitas finas como a sopa vichyssoise, o risoto de brie com pera, o steak tartar, o bacalhau com natas, os profiteroles. “Esse tipo de prato, antes considerado ‘de rico’, está mais acessível. Hoje, todo mundo sabe do que se trata”, afirma Fernando.

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