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Se o paladar não está para o vinho, refrescos com (e sem) álcool são alternativas

Sangria tradicional da Adega Santiago, à base de vinho tinto, suco e pedaços de frutas e conhaque
Bruno Zanardo/Fotoarena
Sangria tradicional da Adega Santiago, à base de vinho tinto, suco e pedaços de frutas e conhaque

Temperaturas oscilantes sugerem uma dúvida a quem equipou a adega de casa: o que fazer com os vinhos? Beber parece a resposta óbvia, mas o brasileiro se habituou a beber vinho tinto quando o clima está ameno – mais do que provado pelo aumento de vendas das importadoras nos meses de junho a agosto. As sangrias, refrescos alcoólicos à base de frutas e vinho, são um jeito completamente diferente de tomar vinho no calor. Para isso, é possível usar um tinto de boa qualidade (com bom senso, lógico, para não queimar algo realmente especial em uma receita relativamente despojada).

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A sangria, servida em jarra, é típica da gastronomia espanhola . Mas também existe em formatos distintos em outros cantos do mundo. Na Espanha, a receita segue mais ou menos a mesma fórmula: frutas picadas, suco de laranja ou limão, açúcar, bebida gaseificada (opcional), vinho tinto e uma pequena porção de algo um pouco mais forte, que acentua o traço alcoólico. Essa outra bebida costuma ser brandy, mas pode ser trocada de acordo com a preferência (ou com aquilo que se tem disponível no bar).

A história é um tanto desencontrada. Uma tese possível é que a sangria tenha aparecido primeiro nas regiões banhadas pelo Mediterrâneo – principalmente as Ilhas Baleares – onde a temperatura é mais alta, as frutas são abundantes e a produção de vinho não é tão expressiva. A bebida teria surgido, portanto, como forma de refrescar e ajudar a adoçar um vinho que à época não era tão bom.

Veja aqui a receita da sangria tradicional


Já o nome 'sangria' é uma referência à cor, e é especialmente adequado quando se trata do vinho produzido na região que originou a bebida, que têm tom intenso, lembrando sangue. Por ser mais leve e de certa forma mais econômica (acrescentando outros líquidos a gente dilui o álcool e rende mais), seu consumo no país ficou associado às festas familiares e religiosas.

Bruno Zanardo/Fotoarena
"Sangria" de saquê e soda do Marakuthai: campeã de pedidos

Releituras

No vizinho Portugal, a sangria também faz companhia para os bocados. A diferença é que ali ela é acrescida de canela em pau, ervas frescas (como hortelã) e a segunda bebida costuma ser a bagaceira ou o licor Beirão. Outra “parente” é o clericot, criado na França ou na Índia (há controvérsias), mas difundido principalmente pela Argentina – a fórmula clássica leva vinho branco, frutas e água com gás, mas há inúmeras fórmulas com mais ingredientes.

Confira a receita de sangria de espumante


Em terras tropicais, a sangria parece tão bem-vinda que surge não em uma, mas em inúmeras versões diferentes. O restaurante paulistano Marakuthai incorporou de tal forma o drinque que desenvolveu uma carta só de sangrias. A chef Renata Vanzetto disse que idealizou a seleção por preferência e por acreditar que esse tipo de bebida, leve, combina com os pratos tropicais e aromáticos servidos na casa. O resultado a surpreendeu. “Hoje, a sangria é a mais vendida entre os drinques da casa", conta. "A gente nem esperava que fosse fazer tanto sucesso, tivemos até que comprar mais jarras. Visualmente elas chamam muito a atenção, então se um cliente vê na mesa ao lado, logo quer pedir também.”

Sangria de saquê: aprenda a fazer

O Marakuthai oferece sugestões bem exóticas, como a que leva saquê, licor de menta, triple sec, anis e gengibre e até uma sem álcool, feita com água de coco e frutas. O Brie Restô também tem quatro opções, ali chamadas de clericot. Uma delas combina vinho tinto, amoras e licor de frutas vermelhas, dando ênfase ao aroma de compota liberado por alguns vinhos.

Algumas casas imprimem sua personalidade em detalhes da sangria: no restarante Kebab Salonu , também em São Paulo, ela é feita com o fortíssimo arak (destilado árabe) no lugar no brandy. É adoçada com mel, enquanto que o hindu Tantra serve a bebida com especiarias e flores.

Criar sua própria versão do drinque não é difícil e, levando-se em conta a variedade de frutas e bebidas disponíveis, pode resultar em uma tarefa divertida. Juliano Valese, chef-proprietáro do bar espanhol Torero Valese , dá algumas dicas: “É melhor cortas as frutas laminadas – e não em cubinhos – para aproveitar melhor o sabor de cada uma. Também recomendo usar um bom vinho, independente do tipo de uva. Por fim, quando for utilizar algum tipo de espumante é melhor não acrescentar gelo e sim adicionar a bebida bem gelada”, sugere. O serviço pode ser feito em taça do tipo bordeaux, ou outro modelo grande, que valorize as cores e as frutas -- que costumam ser comidas.

Sangria de espumante (esq.) e clericot de frutas vermelhas, do Brie Restô
Edu Cesar/Fotoarena
Sangria de espumante (esq.) e clericot de frutas vermelhas, do Brie Restô

Kalimotxo e zurracapote

Se as receitas que ganham espaço em cartas de bebidas nacionais parecem apostar na inventividade e ingredientes caprichados, nos países onde o consumo de vinho é algo tão trivial quanto beber água, versões populares ganham barraquinhas, lanchonetes e festas de rua. Uma delas é o kalimotxo, drinque do pais basco que consiste na mistura de partes iguais de vinho tinto e refrigerante de cola, algumas vezes com um toque de lima ou anis. A colônia basca difundiu o hábito, que já faz parte do dia a dia de uruguaios e chilenos. Quando o sabor do refrigerante muda, a bebida ganha novo nome: pitilingorri, caliguay ou tinto de verão.

Dispensa bebida alcoólica? Veja aqui como obter a resfrescância da sangria, sem álcool


Já a zurracapote (também conhecido como zurra) é a sangria curtida depois de ser misturada a frutas, canela e sucos e aparece com mais frequencia no norte da Espanha . Em alguns casos, a bebida é aquecida antes de ser servida, resultando em algo semelhante ao que no Brasil é conhecido como vinho quente.

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