Sete bebidas tipicamente brasileiras

Uma seleção de refrigerantes e outras composições regionais. No Maranhão, o Guaraná Jesus é mais popular do que a Coca-Cola

Larissa Januário, especial para o iG São Paulo |

Pelas ruas de São Luis, no Maranhão, o refrigerante cor-de-rosa com notas de canela é mais popular do que a Coca-Cola. É o Guaraná Jesus. No Paraná, um refresco gasoso à base de gengibre foi batizado de Gengibirra. E tem a Cajuína, cristalina, em Teresina.

O antropólogo Raul Lody anota que, como ocorre com as comidas típicas, as bebidas regionais do Brasil são influenciadas pelo clima, a vegetação e os costumes locais. E são várias. Lody classifica esses produtos por situações. “Existem as bebidas de cotidiano (refrigerantes, refrescos e licores), as de festa (quentões, batidas), que envolvem rituais culturais, e as de partilha”, explica. “O chimarrão é assim. As pessoas se reúnem e todos partilham a mesma cuia.” Entre as artesanais, feitas em casa, o aluá é um refresco à base de casca de abacaxi ou farelo de milho muito consumido no norte e no nordeste do País.

Veja a seguir uma relação dos produtos regionais mais populares, seus ingredientes, influências e histórias.

Aluá
É um refresco de origem indígena e baixa dosagem alcoólica obtido da fermentação de casca de abacaxi, milho triturado ou arroz. Muito popular em diversas regiões do Brasil a receita artesanal tem variações no preparo e tipos de ingredientes de acordo com a localidade, mas é mesmo mais comum no norte e nordeste.

No Acre e na Amazônia é comum usar o milho triturado ou a farinha de milho, já em Belém do Pará usam cascas de frutas como o abacaxi, a raiz de gengibre (esmagada ou ralada), o açúcar (ou o caldo de cana) e o sumo do limão. O antropólogo Raul Lody tem uma receita de aluá : coloque num pote de barro milho seco maduro, rapadura, gengibre e água. Deixe descansar por três dias. Coe e sirva bem gelado. Outra versão descrita pelo escritor é a feita com casacas de abacaxi, açúcar e água. “Coloque tudo em uma garrafa e enterre-a por três dias. Também toma-se gelado”.

Cajuína
A abundância do caju no estado do Piauí originou a bebida mais popular da região. Cantada por Caetano Veloso, nos versos de Cajuína , é símbolo cultural da capital Teresina. O refresco não é alcoólico e é obtido de forma artesanal a partir do suco do caju, filtrado, clarificado e esterilizado. A cor amarelo-âmbar se deve à caramelização dos açúcares naturais da fruta. A cajuína é consumida gelada.

Chibé
Muito popular entre os caboclos paraenses, é considerada comida por muitos devido ao seu valor energético, semelhante ao da gemada. É feita com água e farinha de mandioca processada. Na cuia, coloca-se a farinha e em seguida a água e, depois, tradicionalmente, se movimenta tudo da esquerda para a direita. Os nativos tomam o chibé duas a três vezes ao dia e acreditam que ele ajuda a vencer as dificuldades da vida e a repor as energias. Às crianças costumam adicionar açúcar, mel ou rapadura.

David Santos Jr./Foto Arena
Tereré do restaurante Sobaria, em São Paulo: a bebida é feita da erva verde seca. É bebida gelada em uma guampa (recipiente feito de chifre de boi)
Chimarrão e Tereré
Provenientes da erva mate, tanto o chimarrão quanto o tereré são típicas bebidas de partilha com algumas peculiaridades. O chimarrão do Rio Grande do Sul é como um chá feito da erva torrada e servido quente na cuia. Já o tereré, do Mato Grosso do Sul, é feito da erva verde seca. É bebido gelado em uma guampa (recipiente feito de chifre de boi). Ambos usam a bomba (canudo de metal com uma base redonda fechada e pequenos furos que filtram a erva). 

O hábito de tomar o chimarrão e o tereré tem estreita ligação com os países vizinhos Paraguai e Uruguai. E o ritual que envolve a bebida também é parecido nos dois estados. As pessoas se reúnem em torno da cuia ou da guampa para saborear a bebida. No Mato Grosso do Sul, o pantaneiro costuma tomar o tereré no início da manhã e no início da tarde.

Extrato de Açaí
O açaí vem de uma palmeira muito comum no estado do Pará. Ela dá, sobretudo durante a seca, coquinhos do tamanho de uma cereja. O fruto de cor violeta-escura, quase negra, é escolhido e amassado para se tornar a bebida mais tradicional da região: o extrato de açaí, uma verdadeira paixão belenense. “É tomado com ou sem açúcar, com farinha d’água, farinha seca ou farinha de tapioca. Na forma de sorvete ou em mingaus, como se fosse leite, um leite vermelho misturado na papa de arroz, farinha de mandioca ou mandioca-puba”, explica Guta Chaves.

David Santos Jr./Foto Arena
Gengibirra, refrigerante à base de gengibre muito popular no Paraná. Em São Paulo, o restaurante Na Cozinha, do chef Carlos Ribeiro, oferece o produto

Gengibirra
O nome batiza alguns tipos de bebidas a base de gengibre. No Paraná, popular mesmo é a Cini Gengibirra. No processo industrial de fabricação do refrigerante a raiz descansa por um ano em decantação antes de entrar na receita.

Os locais costumam creditar à bebida efeitos de expectorante e até mesmo de afrodisíaco. Existe uma versão caseira que, além de gengibre, leva água e açúcar, fermento biológico e claras em neve para dar o efeito gasoso à bebida.

No Amapá, a Gengibirra já não é assim tão inocente. Servida nas rodas de batuque, leva gengibre ralado, fervido em um litro e meio de água com cravos da índia e açúcar caramelado. Depois de fervida a mistura, adiciona-se cachaça a gosto. Todas as versões são consumidas geladas.

David Santos Jr./Foto Arena
O Guaraná Jesus, o sonho cor-de-rosa do Maranhão, faz parte da carta de bebidas do restaurante Na Cozinha, do chef Carlos Ribeiro, em São Paulo
Guaraná Jesus
No Maranhão, o Guaraná Jesus é carinhosamente conhecido como o “sonho cor de rosa”. É um raro fenômeno de resistência regional às grandes marcas globais de refrigerantes. A jornalista e pesquisadora Guta Chaves conta que a fórmula da bebida é a mesma criada em 1920 num laboratório de fundo de quintal, em São Luís, pelo farmacêutico Jesus Norberto Gomes. Na época, ele tinha acabado de importar uma máquina de gaseificação.

Gomes queria produzir uma espécie de magnésia fluída, mas não deu certo e ele resolveu fazer uma bebida para os netos a partir de 17 ingredientes básicos, entre eles ervas e produtos que descobria em suas viagens pela Amazônia. O gostinho de canela adocicada e a cor diferente agradaram a molecada de toda a vizinhança e, com o tempo, a bebida caiu no gosto popular.

A história do Guaraná Jesus confunde-se com a de seu criador. Tanto que quando lhe foi exigido o registro formal do produto já conhecido informalmente por “Guaraná de Jesus”, assim permaneceu. “O refrigerante, que tem a mesma fórmula há 80, foi comprado recentemente pela Coca Cola Brasil e talvez por isso o nome tenha mudado para Cola-Guaraná Jesus”, explica a pesquisadora.



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